Boas-vindas

Caro visitante,
A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço independente (sem patrocínios ou monetização digital) pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

26 de dezembro de 2020

2020 não vai deixar saudade.

 

Momento de consternação, com quase 200 mil mortes no país. Nem dá vontade de escrever.


O Volume de IPOs pode trazer a falsa sensação de que foi um ano bom, mas para o mercado de capitais fica a sensação de que regredimos uns bons anos no quesito regulação. Crescer com insegurança não é um bom caminho.


O “relatório-puxão-de-orelha” do TCU, comentado na minha última postagem, resume bem esse sentimento. Conflitos de interesses liberados, criminosos que praticam insider trading nunca inabilitados e o cortejo segue feliz pela Rua Sete de Setembro.


Vem aí a reforma da Instrução CVM 480, com a Audiência Pública SDM 09/20 (prazo para recebimento de contribuições até o dia 08/3/21 -(http://www.cvm.gov.br/noticias/arquivos/2020/20201207-1.html).


Mas sobre isso eu escrevo no ano que vem.


Cuidem-se para que tenhamos um 2021 mais feliz.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

19 de dezembro de 2020

TCU puxa a orelha do Xerife.


O relatório do TCU, com suas 277 páginas, certamente vai dar muita dor de cabeça para o Ministério da Economia e para a Autarquia. Destaco três constatações: insuficiência na supervisão de operações societárias e em casos envolvendo insider trading, além de potencial conflito de interesses.


Segundo revelado pela jornalista Mariana Durão, do Estado de SP (link para a matéria em https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,tcu-recomenda-a-cvm-que-reforce-supervisao-de-estatais-fundos-e-uso-de-informacoes-privilegiadas,70003556237) o relatório aprovado em reunião do último dia 2/12 concluiu, entre muitos tópicos, que:


  •        “Indícios de que o foco da supervisão na área de empresas recai sobre eventos objetivos de inadimplência na prestação de informações” e que “.... observou-se um número menor de supervisões sobre as operações societárias capazes de afetar de maneira significativa os direitos dos acionistas minoritários, como as operações de fusões, aquisições e cisões, as transações entre partes relacionadas, as emissões privadas de valores mobiliários conversíveis em ações, os aumentos de capital por subscrição privada, as conversões de ações e as reduções de capital.” COMENTÁRIO: a CVM está mais preocupada com eventuais falhas de divulgação e deixa em 2º plano operações societárias que trazem efetivo prejuízo para acionistas minoritários. O relatório está repleto de exemplos, mas quem não se lembra da operação Oi-Portugal Telecom e o recente caso Linx?
  •         “Indícios de atuação sancionatória insuficiente (ou ineficaz, em relação a grandes agentes de mercado) na supervisão e fiscalização dos casos de uso de informação relevante não divulgada ao mercado. Fragilidades na capacidade da CVM de averiguar se os fatos relevantes são divulgados pelas companhias abertas a contento, bem como na capacidade de fiscalizar e sancionar (punir) a realização de transações com uso de informação relevante não divulgada ao mercado (que podem ensejar oscilações atípicas nas cotações dos preços dos valores mobiliários)”. Em seu item 735 consta que “há indícios de que falta à supervisão uma visão sistêmica do problema”. COMENTÁRIO: eu acho que o pessoal do TCU anda lendo o Blog da Governança (rsrs). Uma bandeira antiga que levanto contra o arquivamento de processos de insiders com termos de compromissos ou mesmo com eventuais condenações sem inabilitação. Diz o TCU no item 764: “Um número excessivo ou considerável de absolvições face às condenações em casos de ‘insider trading’ pode passar ao mercado a impressão de que a relação custo/benefício na utilização de informações privilegiadas compensa o relativamente baixo risco de ser pego.”
  •  Item 999: “Ao longo da auditoria, a equipe teve acesso a diversos processos administrativos sancionadores e demais processos de trabalho da CVM (tais como os referentes à elaboração de normativos). Observou-se, em variados casos, atuação significativa de atores, no papel de regulados, que em momentos anteriores ou posteriores compuseram ou vieram a compor o colegiado da autarquia”. O TCU recomendou: “... entende-se pertinente recomendar que parte da diretoria seja proveniente das superintendências, de modo a mitigar o viés pró-regulado que pode ocorrer caso todos os diretores sejam provenientes de instituições reguladas pela CVM, e aumentar participação de pessoas com foco na proteção dos investidores minoritários”. COMENTÁRIO: TCU mexeu em um vespeiro. Pois é, diversidade é não ter somente advogados vindos da iniciativa privada, no melhor estilo da famosa “porta giratória” tão comentada nos EUA. Fato é que com raríssimas exceções, como no voto da diretoria Luciana Dias no caso Oi e do Diretor Henrique Machado no caso Linx, vemos posições “duras” no colegiado, posições que certamente inviabilizariam futuros clientes.


O relatório completo pode ser lido em https://pesquisa.apps.tcu.gov.br/#/documento/acordao-completo/AC-3252-46%252F20-P/%2520/DTRELEVANCIA%2520desc%252C%2520NUMACORDAOINT%2520desc/0/%2520?uuid=3aa0a380-40b0-11eb-8b81-956b25d9dbe9.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

12 de dezembro de 2020

CVM é inerte no trato de empresas corruptoras e seus Administradores.

 

Subtítulo: Flagrados em irregularidades, administradores continuam habilitados a trabalhar em empresas de capital aberto.

(postagem feita em parceria com a coluna “Opinião e Análise” do portal Jota, especializado no universo jurídico brasileiro - www.jota.info)

 


Causa estranheza e indignação notar que os crimes praticados em gabinetes e palácios não merecem apuração do regulador responsável pelo “local de nascedouro” do crime, a origem do dinheiro – as empresas listadas.


Falta de conhecimento não é, basta ler atentamente os jornais. E aquela parceria com o Ministério Público, vale para que?


Inabilitar os diretores de abastecimento e de serviços “daquela” empresa é como roubar bala da mão de criança. E olha que foram somente 15 anos de “geladeira”. Eu quero saber é:

·        O que aconteceu com os Administradores da gigante petroquímica que transformou eteno em uma combinação mágica de “azeite de dendê com propina” e onerou seus acionistas com uma multa bilionária (isso mesmo – bilhões de reais)?

·        E a turma de São Paulo que colocou de pé um pujante esquema que transformava pedágio em propina? Acreditem, eles receberam até bônus de incentivo à delação, algo inédito no Brasil !!!

·        Alguma punição para a turma da empresa aérea que “financiava” as peripécias de “Dudu Bangu 8” na Câmara dos Deputados com contratos de propaganda por anúncios nunca veiculados em sites do “lustroso” deputado?

·        E a farmacêutica que bajulava famosos senadores com pacotes de dinheiro sujo, incluindo o imponente bigodudo da famosa frase “com o Supremo, com tudo”?

·        Quem sabe uma única inabilitação na empresa de telecomunicações que “interagia socialmente”, de forma intensa, com certo ex senador por Minas Gerais, por intermédio de seu instituto social?

·        E a mais recente notícia de pagamento de propina para servidores da Receita Federal por operadores de planos de saúde e pacotes de turismo? Será que algum processo sancionador foi instaurado?


Importante notar que, via de regra, a propina paga trouxe vantagens enormes competitivas para essas empresas, com aumento de resultados e, consequentemente, crescimento nos bônus desses Administradores criminosos. Um verdadeiro círculo “vicioso-criminoso” que deve ser punido com uma inabilitação “quase eterna” de 20 anos e multas vigorosas. Nada de multa simbólica de R$ 200 mil, até porque os bônus recebidos por esses meliantes foram milionários.


E a CVM tem que ir fundo nessas apurações, pois alguém que conhece minimamente o mercado acredita que os acionistas controladores não sabiam de nada? Raposas velhas, em alguns casos empreiteiros com mais de 30 anos na praça, não controlavam nada? Então os conselheiros serão processados por negligência, artigo 158 neles?


Outro dia ouvi um importante advogado criminalista demonstrar preocupação com o que chamou de cultura do “punitivismo” no Brasil. Pode até ser que em outras esferas isso esteja acontecendo, mas o que vemos no nosso combalido mercado de capitais é a cultura da impunidade ampla, geral e irrestrita.


Por fim, fico triste em constatar que o único diretor que demonstra indignação em seus votos está de saída, com mandato encerrando em 31/12/20. A entrevista do diretor Henrique Machado sobre o tema “corrupção” pode ser lida no link https://economia.estadao.com.br/noticias/governanca,cvm-tem-que-repensar-como-tratar-casos-de-corrupcao-diz-diretor-de-saida-do-colegiado,70003538902.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

5 de dezembro de 2020

Conflito de interesses no mercado de capitais: falta coerência ao regulador.

 

Subtítulo: o caso Linx reacende um debate recorrente entre os investidores brasileiros.

 (postagem feita em parceria com a coluna “Opinião e Análise” do portal Jota, especializado no universo jurídico brasileiro - www.jota.info)


O recente julgamento do recurso contra decisão da área técnica da CVM que impedia o voto de executivos da Linx na assembleia geral extraordinária de 17/11/2020 (ata da reunião de 13/11/20 disponível no link http://www.cvm.gov.br/decisoes/2020/20201113_R1.html) nos revela a grande contradição que ronda a Rua Sete de Setembro, sede da autarquia. Vale ressaltar que o único voto contrário ao atropelo da decisão da área técnica foi do diretor Henrique Machado.


De um lado temos a visão “liberalóide” de que “tampouco teria restado configurado, no momento, conflito de interesses apto a gerar impedimento de voto por parte dos Recorrentes, tendo em vista a inexistência de flagrante contraposição entre os interesses dos acionistas fundadores  e o interesse social. Ressalvaram, contudo, que sua análise estaria restrita aos elementos de fato e de direito disponíveis até então, sem prejuízo da verificação a posteriori quanto à regularidade do exercício do direito de voto pelos Recorrentes, nos termos da LSA, inclusive quanto a se os Recorrentes, ao exercerem seu direito de voto, teriam privilegiado interesses pessoais em detrimento do interesse social.”


Ou seja, deixa votar e depois verifica se houve irregularidade. Se essa avaliação ocorrer será tempos depois da operação concluída, com o dinheiro no bolso dos executivos que votaram a matéria (e bota dinheiro nisso !!!). E se constatado o voto em conflito tudo pode ser resolvido com uma multa simbólica de R$ 200 mil, o padrão observado ultimamente.


Mas a mesma CVM, que “libera geral” o voto de administrador/acionista de empresa na assembleia que vai deliberar contrato que resulta em milhões no seu bolso, impede um administrador/gestor de fundo que seja quotista desse fundo de votar qualquer tipo de matéria, como descrito no art. 76 da Instrução CVM 555. Isso mesmo, o administrador está impedido de votar independente da existência ou não de conflito de interesses, como por exemplo, uma singela chamada para emissão de quotas, no fundo fechado, mudança na política de investimentos, alteração dos prestadores de serviços e a amortização e o resgate compulsório de quotas, caso não estejam previstos no regulamento.


Resumo da história: no nosso combalido mercado de capitais o conflito de interesses depende da direção do vento, mesmo que isso atropele a opinião bem fundamentada da área técnica.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

28 de novembro de 2020

Empresa corruptora com ressalva de auditores: como fica o gestor “papinho-ASGI”?

 

Reproduzo a seguir a minha estreia na coluna “Opinião e Análise” do portal Jota, especializado no universo jurídico brasileiro (www.jota.info). É o início de uma parceria que amplia o alcance do Blog da Governança, levando para o mundo jurídico a visão de um investidor/ativista que estimula o debate sobre o nosso mercado de capitais. Meus artigos publicados no “Jota” serão publicados aqui no Blog na 2ª feira subsequente, mantendo-se a tradição que já dura 10 anos.

 

Subtítulo: Por que falar do “I” de integridade, entendido como o princípio que trata da ética e conduta empresarial?


Gestor que faz propaganda de princípios ASGI, a moda do momento, pode investir em empresa que corrompeu agentes públicos, pagando propina para a obtenção de vantagens para a empresa? Não deveria, salvo melhor juízo.


Finge de morto e continua investindo no papel? Põe a culpa no índice: papel faz parte do Ibovespa e sou obrigado a manter em carteira. 


E se todos os investidores boicotarem o papel ele não deixa de fazer parte do índice?


Diz o nobre auditor de uma dessas empresas corruptoras (big4 que começa com P): “Conforme mencionado na Nota 31(c) às informações contábeis intermediárias, em conexão com os processos de investigação conduzida pelas autoridades públicas federais no âmbito das operações citadas na referida Nota, a administração da Companhia tomou conhecimento de investigações sobre supostos atos ilegais realizados por ex-administradores. Em decorrência, conforme aprovado pelo Conselho de Administração, foi constituído Comitê de Apuração e foram contratados especialistas independentes para conduzir investigações relacionadas às alegações e identificar eventuais descumprimentos de leis e regulamentos e os eventuais consequentes impactos sobre os controles internos e sobre as informações contábeis intermediárias da Companhia. Considerando que as ações relacionadas à investigação desses assuntos estão em andamento, os possíveis impactos decorrentes do desfecho desses temas não são conhecidos...”


Isso não fala sobre risco de perda de valor do investimento?


Mas não cobrem coerência de auditores. Outra big4 (que começa com K), ao auditar uma empresa com o mesmo perfil (e além de corruptora investigada pela Polícia Federal tem fraude contábil nas gavetas), não fez qualquer ressalva.


A mesma auditoria fez ressalva em outro caso de empresa corruptora porque considera que os efeitos relevantes dos acordos de leniência foram refletidos nas demonstrações financeiras mas, como as investigações das autoridades públicas não foram concluídas, existem incertezas sobre o futuro: “não é praticável determinar se há perda provável decorrente de obrigação presente em vista de evento passado e nem fazer uma mensuração razoável quanto a eventuais novas provisões passivas sobre este assunto nestas informações trimestrais”.


Resumindo, incerteza total sobre o futuro.


Mas é outro sócio e eles tiveram interpretações diferentes, dirão os puritanos? Vai ver por isso que é a big4 que mais sofre na CVM.


Pois é, e os gestores ficam só no slide de PowerPoint arrotando palavras bonitas sobre diversidade, integridade e governança para impressionar investidor. Pode isso CVM? Propaganda enganosa?


Abraços fraternos,

Renato Chaves

22 de novembro de 2020

Estão tentando enganar acionistas... de novo.

 


Sempre desconfie quando houver propaganda excessiva no mercado de capitais. Foi assim com o “boi gordo”, “avestruz máster” e tantos outros que prometem retornos generosos.


Querem “encerrar” o contrato de royalties pelo uso do nome da família obrigando os acionistas a pagarem o valor futuro desse contrato hoje, trazendo a valor presente as prestações futuras, tudo dentro da legalidade e suportado por caros estudos/pareceres jurídicos ... Simples assim, estão eternizando o valor do contrato, qualquer agente de mercado que fez o curso “matemática financeira para advogados e contadores” sabe fazer essa conta (eu fiz esse curso !!!).


“Prosopopeias flácidas para acalantos bovinos”... Traduzindo, conversa mole para boi dormir (essa “roubei” de um grande amigo, devidamente autorizado).


Nada de transferência de tecnologia, somente um belo nome. O interesse da família é tanto que tem gastos milionários com anúncio na TV e até em rádios (pago por todos né?).


Primeiro tentaram meter a mão grande diretamente no caixa da rentável e prestigiada empresa. Pegou mal. Até porque surgiram questionamentos do tipo “abre mão da marca e usa os milhões para criar uma nova marca, mais moderna”. Só não pode ter X no nome ... Papelex onduladex nem pensar (rs).


A negociação privada (e pouco transparente) com um importante acionista mudou a proposta inicial com criatividade jurídica (sempre eles - os brilhantes e lustrosos advogados do societário) e rendeu alguns “espelhinhos” de presente para os acionistas – melhorias na governança corporativa com a criação de alguns comitês. Esses comitês terão a presença de conselheiros “independentes”? Será que vão mexer na galáctica remuneração do conselho de administração, uma das maiores do Brasil (R$ 101.282,70 por mês segundo proposta para a AGO de 31/7/20)? E pra que um conselho de administração com 14 membros? E haverá cobrança pelo uso da cara estrutura da empresa pela família (salas, secretárias e cafezinhos)? Leiam com atenção a manifestação de voto do conselheiro Mauro Cunha na proposta da Administração (https://bityli.com/Bozbd).


Para reflexão: Gerdau e Vilares cobraram pela extinção dos contratos de royalties?


Já pensou se a moda pega? Os moradores do vale do Rio Doce cobrarão royalties retroativos? Moradores da chácara vizinha à Vila Mariana também terão que pagar royalties?  (brincadeirinhas)


Fato é que se a operação de “extinção” do contrato de royalties passar será mais uma mácula no nosso já combalido mercado de capitais.


Acho que vou aproveitar a safra de BDRs e confiar nas qualidades do bom e velho abacate (https://braziljournal.com/o-ipo-do-abacate).


Abraços fraternos,

Renato Chaves

15 de novembro de 2020

Caso “Linx”: pau que nasce torto...

 

.... Nunca se endireita, diz o ditado e aquela música que invadiu rádios e TV nos nãos 90 (segura o Tchan !!!).


Pois esse caso começou torto e tem tudo para virar briga na justiça, como podemos depreender do debate que participei em 9/11, promovido no canal do YouTube da plataforma Engagee.me (disponível no link https://youtu.be/zzlFUm6UN5M).


Confesso que escrevi uma versão desta postagem elogiando a decisão da área técnica da CVM que proibia os ex-controladores (isso existe ou temos a piada do ano?) de votarem na AGE, mas tive que refazê-la por conta da desastrosa decisão do colegiado da Autarquia de acatar o recurso dos acionistas-controladores-conflitados-que-encherão-os-bolsos-de-dinheiro. Prêmio de controle disfarçado de forma descarada, SMJ (rsrs) !!! Vale ressalvar que o diretor Henrique Machado foi o único a votar contra essa aberração jurídica que só configura o conflito de interesse depois do “leite derramado”, o “ex post” que só interessa aos advogados especializados em litígios (veja o informativo da reunião extraordinária do Colegiado da CVM de 13/11 no link https://bityli.com/xmX2M).


Por essa e outras que começo a entender porque proliferam no grupos de Whatsapp de mercado de capitais memes sobre a atuação da CVM, como a figurinha do xerife dormindo.


Permito-me apresentar alguns pontos relevantes para reflexão dos acionistas da empresa:


·        O Conselho de Administração teria a obrigação de submeter à assembleia do dia 17/11 as duas propostas colocadas na mesa, emitindo uma opinião conclusiva. Digo mais: a Administração deveria avaliar uma 3ª opção, com a recusa das atuais ofertas e um aumento de capital para suportar uma nova rodada de aquisições, consolidando assim a bem sucedida estratégia (contei mais de 20 aquisições no link https://www.linx.com.br/nossa-historia/). E ainda tem bastante dinheiro no caixa da empresa;

·        Cláusulas de “breakup fee”, faca no pescoço dos acionistas, são ilegais, pelo menos aqui no Brasil;

·        O Conselho de Administração foi diligente na análise das propostas? Decidiu de forma informada, refletida e sem conflito?

·        Conselheiros independentes com muito tempo na cadeira, eleitos em chapa única, perdem a independência?

·        Contratos de “non compete” deveriam seguir parâmetros razoáveis, como a multiplicação da última remuneração recebida pelo número de meses do “impedimento”. Fora disso representa prêmio de controle disfarçado; e

·        Mudar o Formulário de Referência em agosto/20 (item 15.5) para classificar os controladores como não controladores foi coisa de amador... e não adianta colocar a culpa no estagiário do jurídico, rsrs.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

9 de novembro de 2020

Mercado de capitais brasileiro: terreno fértil para a barbárie corporativa.


Fico estarrecido em constatar que, depois ter escrito há 13 anos um artigo na coluna opinião do jornal Valor (em 20/03/2007), com o título “A "Lei de Gérson” aplicada ao mercado de capitais”, a situação continua a mesma, ou até pior.


Tem bônus para executivos corruptores combinarem delação premiada, fraude contábil sem punição dos envolvidos, termos de compromisso para executivos-insiders em profusão (não importa a dimensão do crime já que R$ 200 mil resolve tudo), Código de Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC queimado na fogueira (esqueçam uma ação um voto), cláusulas leoninas com multas abusivas para colocar acionistas minoritários contra a parede, prêmio de controle disfarçado em contratos fakes de non compete, ou seja, cada semana uma novidade nefasta. Tudo suportado por pareceres de lustrosos advogados.


Sobre este último caso, o operação "Linx", eu proveito para convidá-los a assistir o debate/live que farei com Vicente Camilo hoje às 18h, no canal do YouTube da plataforma Engagee.me (link https://youtu.be/zzlFUm6UN5M).


Abraços fraternos,

Renato Chaves

31 de outubro de 2020

Nova safra de IPOs: empresas arrumadinhas para inglês ver?

 

O excesso de liquidez permitiu que os bancos de investimentos se entupissem de dinheiro na recente onda de ofertas de ações. O “mercado” está comprando tudo; tem até oferta de ações PN, acreditem.


Interessante notar que os sistemas de governança parecem ter saído de uma receita de bolo dos escritórios de advocacia, verdadeiro copia-cola (palmas para os estagiários, gente que rala): todas as 22 empresas tem comitês de auditoria (pesquisa feita na lista da B3 - http://www.b3.com.br/pt_br/produtos-e-servicos/negociacao/renda-variavel/empresas-listadas.htm). “Que beleeeeza !!!”, dirão os ingênuos e o famoso narrador de futebol. Como assim, existem ingênuos no mercado de capitais?


Diz a lenda que você deve desconfiar dessas ondas do mercado quando o ascensorista e o engraxate te perguntam sobre o comportamento da ação A ... ou X.


Pois lá vai a 1ª provocação: se o sistema de governança está sendo criado do zero por que não colocar no Estatuto Social que os comitês de auditoria são obrigatórios? Comitês não estatutários podem ser extintos de acordo com o humor do controlador; medinho de controlador iniciante? E por falar em comitês de auditoria, teremos relatórios públicos dos trabalhos realizados? Ou a falta de transparência continuará a usual de mercado? Já viram alguma denúncia formulada por COAUDs? Vale lembrar que duas famosas empresas investigadas pela Polícia Federal por pagamento de propinas para fiscais da Receita tinham robustos COAUDs, regiamente remunerados com importantes figurões (notícia fresquinha de 22/10).


2ª provocação: o blábláblá dos princípios ESG. Cadê a diversidade nos conselhos? Só tem homens brancos, com suas Mont Blanc e seus Rolex (cuidado em Congonhas...), ternos italianos, barba feita e perfil conciliador de lorde inglês recém-saído do Palácio de Buckingham.


3ª provocação: somente 3 empresas instalaram conselhos fiscais na largada. Será que essas empresas acreditam no sucesso da nefasta campanha da associação brasileira de controladores (deveria se chamar Abrasco), que tenta excluir dos boletins de voto à distância a opção de pedido de instalação de conselhos fiscais nas AGOs de abril? A CVM vai se curvar diante da pressão? Lembram-se da correria que foi quando deu crash nas empresas X, um verdadeiro barata-voa na tentativa de instalar conselhos fiscais? Pois é, a história é cruel, e por vezes se repete.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

P.S. : no próximo dia 9/11, às 18h, participarei de uma live com Vicente Camilo sobre a "disputa pela Linx", promovida pela Engagee.me no YouTube (link https://youtu.be/zzlFUm6UN5M).

25 de outubro de 2020

Rasguem o Código de Ética porque o exemplo que vem de cima não presta.


Esqueçam aquele aviso da área de RH (o blábláblá sobre o recém-revisado Código de Ética e o lançamento do Programa de Integridade) e os alertas da equipe de Relações com Investidores sobre restrições na negociação de ações, pois está liberado negociar ações 3 dias da divulgação de fato relevante, ou seja, com informação privilegiada. Grandes empresas listadas corrompendo agentes públicos também já virou rotina, como nos revelou a Polícia Federal na semana que passou.


O exemplo vem de cima, apregoam os profetas que vagueiam pela Rua Barata Ribeiro e pela Avenida Heráclito Graça, e no nosso combalido mercado de capitais as aulas dos bandidos de colarinho branco são coroadas com uma lição e tanto: se for pego cometendo esse crime hediondo, como foi o caso de um importante diretor vice-presidente de empresa listada no Novo Mercado, dessas cheias de vida, ofereça R$ 100 mil para o Xerife. Depois de uma “dura” negociação, socos na mesa e muito beicinho, aumente a oferta para R$ 200 mil e corra para comemorar com seus dedicados advogados na bucólica Confeitaria Colombo, já que esse é o valor referência para liberar quem pratica insider trading de uma condenação e posterior denúncia ao Ministério Público.


Fez sujeira? Lavou com um DARF tá limpinho novamente. Vida nova e feliz para o meliante (os “entendores” entenderão...). Como não existe inabilitação para esses casos no Brasil, só nos resta anotar o nome do indivíduo em uma lista particular de “impedidos”, evitando assim convidá-lo para vagas em conselhos e até mesmo para um joguinho de tênis nas quadras do Harmonia ou um passeio de lancha em Ilhabela.


Abraços fraternos,

Renato Chaves