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A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço independente (sem patrocínios ou monetização digital) pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

30 de agosto de 2020

Formulários de Referência e conflitos de interesses.


Uma visita aos mais de 70 Formulários de Referência das empresas que compõem o Ibovespa revela um aspecto que tem merecido pouca atenção dos investidores, a remuneração dos presidentes de conselhos de administração.

Será que ninguém acha anormal os presidentes de conselheiros de administração de 8 empresas ganharem o dobro, até o triplo da remuneração paga aos respectivos CEOs? Dedicação de tempo excessiva? Não me façam rir... E por que somente 8 empresas adotam essa “estranha” prática?

Será que ninguém acha irregular um acionista controlador aprovar a verba global na AGO e, no momento seguinte, votar a distribuição da verba global no conselho de administração, com a destinação de boa parte da verba para o próprio bolso?

Empresa

Maior remuneração na diretoria

Maior remuneração C.Adm

Azul

6.978.955,00

11.460.067,00

Bradesco

30.659.720,00

33.840.240,00

BTG

2.400.000,00

4.800.000,00

Gerdau

4.585.691,00

8.491.693,00

Cyrella

1.545.244,46

3.351.942,00

MRV

3.924.928,00

8.758.969,00

Pão de Açúcar

19.668.196,68

33.222.858,90

WEG

584.032,46

1.359.368,80

 

Abraços fraternos,

Renato Chaves


22 de agosto de 2020

Vem aí um estudo inédito sobre remuneração de administradores no Brasil.


Sabem aqueles estudos norte-americanos que geram um enorme debate por revelarem a relação entre as maiores remunerações e a remuneração média de empregados em grandes empresas?

Pois é o que veremos por aqui brevemente.

Será que teremos relações de 265 vezes, 300 vezes?

Veja o levantamento feito pela Bloomberg (copiada da matéria da BB News do dia 08/1/19 – link Os países em que CEOs já ganharam em 2019 mais do que você receberá o ano todo):

Esta é a quantidade de dinheiro recebida por um CEO na comparação com o trabalhador médio (Fonte: Bloomberg, PayScale.com)

País

Razão rendimento CEO-trabalhador médio

Renda anual de um CEO

1. Estados Unidos

265:1

US$14,25 milhões

2. Índia

229

US$1,16 milhão

3. Reino Unido

201

US$7,95 milhões

4. África do Sul

180

US$2,21 milhões

5. Holanda

171

US$8,24 milhões

6. Suíça

152

US$8,5 milhões

7. Canadá

149

US$6,49 milhões

8. Espanha

143

US$4,89 milhões

9. Alemanha

136

US$6,17 milhões

10. China

127

US$1,87 milhão

17. Coreia do Sul

66

US$2,32 milhões

18. México

62

US$1,29 milhão

19. Suécia

60

US$2,79 milhões

20. Cingapura

56

US$4,62 milhões

 

Por aqui olhei os Formulários de Referência (itens 13.11 e 14) e Demonstrações Financeiras base 2019 (DVA consolidado – item 7.08.01.01 – remuneração direta -pessoal) das empresas que compõem o Ibovespa.

Aguardem, tenho certeza que os números irão surpreender.

Abraços fraternos,

Renato Chaves

14 de agosto de 2020

Advocacia criativa para driblar as leis.

 

A operação bombástica da semana nos revela a infindável criatividade dos advogados que atuam no nosso mercado de capitais. 

Criatividade levada ao extremo para tangenciar leis, permitindo que acionistas controladores/fundadores capturem o prêmio de controle "por fora". Uma pedalada aro 29.

Aos demais acionistas só resta "entubar" a operação, pois a faca no pescoço veio na forma de multa, caso a AGE desaprove (lei mais na matéria do jornal Valor de hoje - https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/08/14/mercado-questiona-acordo-de-stone-com-fundadores-da-linx.ghtml).

Para piorar a situação existem fortes suspeitas de insider trading "a la banco suíço", ou seja, banco de investimento que assessorou a operação fazendo estripulia.

Nada que um terminho de compromisso de R$ 19,2 milhões não resolva. (recordar o ano de 2009 é viver).

Abraços fraternos,

Renato Chaves

 

P.S: aproveito a postagem antecipada para homenagear os bravos estagiários pelo seu dia - 18 de agosto.

8 de agosto de 2020

Ajustes decorrentes das distorções identificadas ao longo do processo de revisão e reconciliação da escrituração contábil: eufemismo para fraude?


Impressionante. Ninguém viu nada !!!

Outro dia, ficamos sabendo que um fundo de pensão informou nas suas demonstrações financeiras que teria aluguéis a receber no valor de R$ 1,3 bilhão em 2019, valores inflados de forma repetida desde 2015 por erro de digitação (!). Isso mesmo, os valores não passavam de R$ 142 milhões em cada ano, algo que não foi visto por experientes auditores externos.

E como pode uma empresa de capital aberto, ainda inadimplente com a publicação das demonstrações contábeis de 2019, declarar que distorções em determinadas contas contábeis chegam ao valor de R$362,3 milhões ???

E na grande empresa de varejo que fez “ajustes contábeis” de R$ 1,1 bilhão (por fraudes, erros e mudanças de estimativa conforme fato relevante de 25/3/2020), algum executivo inabilitado? Processo na CVM? Expulsão no quadro de sócios do Harmonia ou do Country Clube do RJ?

Será que veremos um dia por aqui prisões ao estilo “série Billions”?

Quem sabe uma meia dúzia de Administradores não será inabilitada na CVM?

“Sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu” ..... E viva Dona Ivone Lara !!! (https://www.youtube.com/watch?v=IKrDjD_tuwI&list=RDIKrDjD_tuwI&start_radio=1&t=5)

Abraços fraternos,

Renato Chaves

1 de agosto de 2020

Assembleias de acionistas: a batalha dos Rolex.

Sei que vou arrumar “treta” com metade da OAB, mas como tenho muitos amigos advogados lá vai: as AGO/AGE, dominadas por homens engravatados (já viram uma advogada na presidência desses encontros? Nunca vi em mais de 850 milhões de assembleias presenciais e virtuais ... quem souber de “umzinho” me avisa, manda a ata por favor), parecem uma batalha de pavões, com a alternância de discursos ríspidos “de novela” e elogios ensaboados para definir quem ostenta a mais bela plumagem. 

Abre aspas: tenho que enaltecer o apoio logístico da legião de bravos estagiários, pois sem eles tais encontros estariam fadados ao insucesso; advogado com mais de 35 anos não sabe rodar a planilha para calcular o “número mágico” de ações necessárias para a eleição por voto múltiplo.

Fico imaginando a angústia desse povo com o advento das assembleias virtuais – haja estoque de gel para alisar cabelo !!!

Já escrevi bastante sobre assembleias, que chamo carinhosamente de teatro de bufões (vejam as crônicas dos dias 12/6/20 e 17/11/18 em https://www.blogdagovernanca.com/2020/06/o-enigmatico-caso-dos-advogados.html e https://www.blogdagovernanca.com/2018/11/assembleias-de-acionistas-dando-adeus.html).

Noves fora os advogados, o “destaque maior” fica com a pífia atuação dos investidores nesses encontros.

Escrevi na postagem do dia 10/7/20 sobre a complacência de investidores diante de tantos descalabros no nosso mercado de capitais (veja em

https://www.blogdagovernanca.com/2020/07/investidores-aceitam-desaforos-em-troca.html).

Já notaram que, salvo raríssimas exceções, os grandes investidores fazem papelão nas assembleias?

Perguntas objetivas antes da deliberação sobre demonstrações financeiras? Quase nunca.

Questionamentos sobre proposta de orçamento/destinação dos lucros? Coisa rara.

Voto fundamentado contra remunerações abusivas? Só mesmo dos investidores signatários do Código Amec de Princípios e Deveres dos Investidores Institucionais – Stewardship. (leia o código no link https://www.amecbrasil.org.br/stewardship/codigo/).

Mas quando é para a eleição de conselheiro tem até confraria organizada.

Confesso que na famosa AGO do dia 22/7 foi a 1ª vez que presenciei um grande investidor tentando “retirar” o seu “apoio” ao pedido de eleição de conselheiro de administração por voto múltiplo.

Pior que isso só mesmo ouvir uma procuradora repetir, às 1h30 da madrugada, um extenso voto sobre remuneração, certamente elaborado pelo 4º escalão do acionista controlador.

Semana que vem tem mais crônica sobre assembleias...

Abraços fraternos,

Renato Chaves