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A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço independente (sem patrocínios ou monetização digital) pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

27 de março de 2020

Fórmulas mágicas para salvar empresas: mais do mesmo.



A cartilha em momentos de crise é sempre a mesma: preservar o caixa. A fórmula é relativamente simples: contratar bons advogados* (bons porém mauzinhos), negociar com fornecedores,  postergar o pagamento de aluguéis e impostos (se possível) e demitir, demitir, demitir... (* P.S.: na verdade contrata um advogado/a e vários estagiários, pois são os estagiários que movem o mundo corporativo).

A cartinha meiga do pessoal do RH, assinada pelo pomposo/cheiroso CEO tem sempre o mesmo discurso: infelizmente a empresa passa por um momento difícil, o sacrifício é inevitável. Mas os “guerreiros” que restarem formarão um time vencedor ... “Juntos somos fortes”.

Chega a ser cômico, já que nenhum executivo fala em sacrifício pessoal.  Que tal reduzir a remuneração dos administradores à metade? A contribuição financeira pode ser pequena, mas o recado seria muito positivo.

E os milhões de reais gastos recentemente em treinamento do pessoal? A empresa investe milhões em máquinas novas, treina pessoal e demite metade da força de trabalho para preservar o EBTIDA dos próximos 12 meses? Acionistas satisfeitos com a preservação das margens e  dividendos...

Se a crise pegou a empresa com um caixa “vulnerável” (incompetência dos executivos? Desatenção dos conselheiros?), por que não promover um aumento de capital?

Se a crise é passageira, os sócios acreditam firmemente no negócio, afinal autorizaram o investimento de milhões de reais em máquinas e treinamento, o momento é de acreditar ainda mais e injetar dinheiro novo no negócio. Aproveita que o papel caiu mais de 50% e coloca mais grana, vai ser um ótimo investimento para todos.

Porque pega muito mal jogar milhares de trabalhadores e seus familiares na sarjeta e continuar desfilando de Mercedes AMG prateada pelas estreitas avenidas da cidade. Empresa pobre ... acionista rico... sociedade doente.

Estou sem paciência com esses vendedores de receita de bolo de fubá... Prefiro o bolo da vó Virgínia.

Um abraço fraterno,
Renato Chaves

#fiqueemcasasalvevidas

22 de março de 2020

A inoperância da B3 e CVM: o mercado de capitais tem que parar, o Brasil tem que parar.



Quem não leu deve ler o artigo do Prof. Rodrigo Zeidan, colunista do jornal Folha de São Paulo e colega de Fundação Dom Cabral, com o título “Parem o país” (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-zeidan/2020/03/parem-o-pais.shtml). Ele afirma que
“europeus achavam que dava para ficar em cima do muro, e a tragédia se instaurou”.

No âmbito do mercado de capitais tem que suspender tudo: a realização das AGOs e a publicação de DFs e ITRs, até que a situação seja normalizada. Depende de mudança na Lei? Medidas provisórias estão aí para isso. Ou vamos expor a vida de funcionários das áreas financeiras, RI, jurídico, etc. das empresas só para satisfazer quem está querendo especular nesse momento? Qual o fundamento para um papel cair 15% em um dia para subir 7% no dia seguinte? A empresa parou de faturar, mas no dia sentido despachou um navio abarrotado para a China? Claro que nada aconteceu, o que temos é gente especulando fortemente e quem sabe até manipulando preços.

Uma amiga jornalista me perguntou se as DFs de 31/12/19 deveriam ser refeitas.... Não !!! Só saberemos dos impactos nas empresas depois que a poeira baixar. Alias, parodiando Raul Seixas, o auditor ficou em casa porque sabia que o contador não estava lá (O dia em que a Terra parou - https://www.youtube.com/watch?v=PuZy6gYtU6o).

Infelizmente, se nada for feito agora, as empresas terão que informar nas Notas Explicativas das próximas DFs o número de cadáveres nas portas de suas fábricas e escritórios.

Eu até imagino que, passado o período de isolamento social voluntário, as vendas se recuperarão em uma velocidade surpreendente: demanda reprimida. Eu já tenho uma listinha do que comprar, coisas para casa que só mesmo a convivência diária forçada (e intensa) com louças e panelas me fez enxergar.

Liguei para o 0800 da CVM no início da semana para saber se o prazo para realização das AGOs seria revisto e a simpática atendente me passou o telefone da SEP. Nova tentativa e o assustado funcionário nem trocou duas palavras comigo: é investidor, então o assunto é com a SOI... Nova tentativa, e a resposta burocrática foi “procura no site da CVM”.

Pois bem, o que temos para hoje, além de profunda preocupação e tristeza, é o seguinte comunicado (emitido no sábado 21/3/20 - http://www.cvm.gov.br/noticias/arquivos/2020/20200321-1.html):

“A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informa que não há, neste momento, nenhuma discussão relacionada a interrupção de negócios realizados em Bolsa. Tampouco existe a suposta "pressão" desta Autarquia junto à B3 para que as atividades realizadas pela instituição sejam interrompidas”.

Tudo passa e tudo muda. Nesse momento conturbado podemos ler aquele livro parado na prateleira, ouvir aquela música inspiradora... “Todo cambia”, muda o rumo o caminhante como nos disse a brilhante Mercedes Sosa (https://www.youtube.com/watch?v=SJ9klrcXRVI).

Desejo boa sorte a todos. Vamos precisar.

Um abraço fraterno,
Renato Chaves

P.S.: quando vejo a repórter da Globonews entrevistando o economista de uma gestora de recursos com uma mesa de operações repleta de gente ao fundo logo penso: o mercado financeiro não sabe o que é trabalho remoto? Já sei, não tem como acessar o Bloomberg de casa... Quantos desses dedicados funcionários morrerão nos próximos dias? Quantos familiares serão infectados? A repórter vai morrer? Não estou rogando praga, mas a inoperância dessa gente vai matar muita gente !!!

14 de março de 2020

Você investe em empresa que pagou propina? O auditor externo avisa: muito cuidado.



Antes de nos perguntarmos se vai ter Olimpíadas vem a pergunta: vai ter AGO?

Qual será a postura das empresas que costumam realizar assembleias em auditórios com 100, até 200 pessoas? E se for uma assembleia com polêmicas, teremos um festival de perdigotos “voadores”? Ou será que finalmente teremos assembleias com transmissão on line, estilo Warren Buffett? E o chat de perguntas e respostas antes das assembleias, previsto no item 12.2 do Formulário de Referência, finalmente vai ser adotado pelas empresas? Mantem a AGO, mas somente com voto à distância?

Enquanto abril não chega o fato é que nove em cada dez investidores começam a leitura das DFs pelo parecer do auditor externo. Se o parecer tem ressalva a luz amarela (ou até a vermelha) é acesa.

Vejam o caso da empresa que pagou propina para cobrar pedágio. Diz o parecer com ressalva da firma de auditoria que começa com K: “No momento, não é praticável determinar se há perda provável decorrente de obrigação presente em vista de evento passado e nem fazer uma mensuração razoável quanto a eventuais novas provisões passivas sobre este assunto nestas demonstrações financeiras. Consequentemente, não foi possível determinar se teria havido necessidade de efetuar ajustes e/ou divulgações adicionais nas demonstrações financeiras individuais e consolidadas em 31 de dezembro de 2019 e informações correspondentes divulgadas para fins de comparação.”

Ou seja, investimento de olhos vendados, um tiro no escuro.

Mas reparem que as auditorias não agem de forma padronizada. Na empresa envolvida na operação “Tira-Teima” (corrupção tratada com alguns comprimidos para dor de cabeça nas DFs pelo eufemismo de “pagamento de despesas indevidas” entre 2013 e 2016), auditada pela empresa que começa com P, o parecer saiu “limpo”, somente com a seguinte observação para justificar a inclusão do espinhoso assunto como PAA (principais assuntos de auditoria): “Também, pelos impactos, ainda não conhecidos, de eventuais acordos com as autoridades competentes ou, ainda, pelos impactos de eventual identificação de violações de leis e de regulamentos pelo Poder Judiciário, que resultariam em multas, sanções, penalidades, litígios e/ou restrições em negócios futuros da Companhia.”

Ou seja, uma caixinha de surpresas para os investidores.

Sei que o tema é asqueroso, ninguém gosta de comentar (fóruns de governança preferem discutir temas mais amenos) e a maior preocupação nos dias de hoje é com o coronavírus (vide orientação da CVM em  http://www.cvm.gov.br/noticias/arquivos/2020/20200310-1.html), mas é importante ouvirmos o Ibracon e a CVM (já cadastrei consultas formais no dia 12/3).

Abraços a todos,
Renato Chaves

6 de março de 2020

O CFO vai ser preso?



Se fosse um episódio da série Billions o procurador Chuck Rhoades já estaria na sede da empresa que foi queridinha do mago de Omaha sem-nunca-ter-sido, com um sorriso sarcástico nos lábios (algo típico no semblante do sisudo “senhor-procurador” depois de uma noite repleta de chicotadas) e uma viatura estacionada na esquina da Marechal Câmara com Churchill para levar o meliante para um passeio na sede da PF, na Praça Mauá.

Pausa 1: por falar em Praça Mauá, vocês já visitaram o Museu do Amanhã? Programão para paulistas e cariocas, gregos e goianos... #eurecomendo.

Mas voltando à vaca fria, a pergunta do título foi o assunto da semana nos grupos de Whatsapp, nos comedouros da Dias Ferreira e nas padocas do Itaim.

Mas será que alguém acredita mesmo que o CFO amigo-das-Alagoas vai sofrer alguma punição?

Pausa 2: essas pesquisas no Google são cruéis ... agora dá para saber até o time de infância de juízes de futebol... E adivinhem qual time predomina nos corações dos árbitros brasileiros? Pois é, também pensei nele, estatisticamente falando...

Desculpem a divagação pós-carnaval. 

Retornando ao tema eu não acredito em punição severa. No máximo rola um PAS padrão, estilo puxão de orelha por mal feito, com zero de caráter educativo para o mercado.

A depender da robustez da peça acusatória e, principalmente, do porte ($$$) do advogado a ser contratado pelo meliante (e da consequente quantidade de estagiários envolvidos – são eles que realmente trabalham pesado), se organizar direitinho tudo termina em pizza, ou melhor, termina com um termo de compromisso na 7/9, com direito a comemoração na Confeitaria Colombo (3 quindins de iaiá no máximo porque o escritório tem que faturar...). Arrisco-me até a chutar o valor do futuro TC: R$ 150 mil.

Espero estar errado.

Abraços a todos,
Renato Chaves