Boas-vindas

Caro visitante,
A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço independente (sem patrocínios ou monetização digital) pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

26 de novembro de 2021

Termos de compromisso para crimes hediondos no mercado de capitais: lavando roupa suja com alvejante.

 


E o nosso mercado volta ao “normal”, com o arquivamento de mais um caso de insider trading primário, ou seja, um crime (repito crime !!!) cometido por Administrador de uma empresa listada.


Em sã consciência, alguém aceita pagar R$ 20.203.194,00 para encerrar um processo sancionador, sem confissão de culpa, se não tiver a mais absoluta certeza da culpa? (leia mais sobre o caso no link https://www.gov.br/cvm/pt-br/assuntos/noticias/cvm-aceita-acordo-de-mais-de-r-20-milhoes-com-executivo-da-marfrig)


O fato é que o crime de colarinho branco compensa aqui no Brasil. Se for pego em conduta deletéria basta negociar com o Xerife o valor do DARF. Sujou a reputação? Usa um dinheirinho que fica limpinho novamente. Uma vergonha.


É legal, dirão meus amigos advogados. Sei que vou arrumar confusão, mas discordo peremptoriamente, pois a Deliberação CVM nº 390 afirma, no artigo 9º (http://conteudo.cvm.gov.br/legislacao/deliberacoes/deli0300/deli390.html), que o Colegiado “considerará, no seu exame, dentre outros elementos, a oportunidade E a conveniência na celebração do compromisso, a natureza E a gravidade das infrações objeto do processo, os antecedentes dos acusados E a efetiva possibilidade de punição, no caso concreto.” Ou seja, a CVM está usando em suas decisões um ou outro elemento, tendo em vista que o insider trading será sempre uma infração grave (um crime) e, em se tratando de insider primário (relação entre o Administrador e a origem da informação), é de fácil comprovação para punição. E tem mais: em se tratando de infração grave o termo de compromisso nunca será oportuno, pois se perde a oportunidade de educar o mercado. Na verdade se trata de uma boa oportunidade para encher o cofre do Tesouro, somente isso, e a conveniência só vale para o meliante.


Fica a dica: cuidado ao comprar a sua peça de fraldinha ou maminha para o churrasco de final de ano, pois o avental do açougueiro foi lavado, com o famoso alvejante “Sete de Setembro 111”, mas as manchas de sangue continuam lá. Parece que é característica do setor, vide os casos dos frigoríficos comandados por “matilhas” de irmãos (um já faliu, o outro adora uma delação premiada...).


“Purificar o Subaé, mandar os malditos embora”, já nos dizia Caetano Veloso.


E parodiando o brilhante compositor Candeia, “enquanto houver sangue na veia, empurrarei a minha bandeira”.


Abraços fraternos e saudações alvinegras,

Renato Chaves

19 de novembro de 2021

Boi gordo ou touro magro?


 

Esses marqueteiros da B3 merecem ser estudados pela NASA. A empresa, bastante questionada por praticar remunerações faraônicas para seus executivos (tem até processo na CVM, fresquinho, fresquinho), arrumou sarna para se coçar. Assim como o mar não está para peixe, o pasto não está para touro. Com poucos dias de vida, o “touro de ouro” virou meme na rede (cow parade? Prefiro uma estátua do CDI, etc, etc) e alvo de protestos mais contundentes. Sugiro retirar o “touro medroso” antes que o mercado chegue a 90 mil pontos (medroso sim, ele está refugando, bem diferente do primo norte-americano), pois como diria Nelson Rodrigues isso pode ser obra do “sobrenatural de Almeida”.

 

“Touro de ouro” ou boi tolo (o bloco de carnaval que não termina nunca)? Lembrei na hora do boi gordo – sempre desconfiem de novos produtos que investem rios de dinheiro em propaganda, especialmente se contratarem artistas globais.

 

Em um dos países com mais desigualdade no mundo (https://www.cnnbrasil.com.br/business/desigualdade-no-brasil-cresceu-de-novo-em-2020-e-foi-a-pior-em-duas-decadas/), os iluminados da B3 resolvem importar um símbolo dos EUA, que aqui ganha ares de “touro de ouro” (https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/11/16/touro-de-ouro-b3.htm), enquanto empresas do nosso mercado resistem em “importar” boas práticas de lá, como indicadores relacionados com o tema ESG divulgados de forma padronizada. Sim, a poderosa associação brasileira de empresas listadas é contra a adoção de indicadores de ESG nos Formulários de Referência, como aquele que trata da relação entre a remuneração do CEO e o salário médio da empresa.

 

Ou seja, o que serve para lá não deve ser praticado aqui.

 

Sabem por que? Vergonha !!!

 

Enquanto lá esse índice gira em torno de 351 vezes (https://www.epi.org/publication/ceo-pay-in-2020/) e por volta de 299 vezes nas empresas do SP500 (https://aflcio.org/executive-paywatch/company-pay-ratios), por aqui é comum vermos a relação passar de 500 vezes !!! Aliás, esse estudo inédito será divulgado brevemente em parceria com o jornal Valor Econômico.

 

Mas vamos falar de coisas boas, antes que me chamem de pessimista (todo botafoguense é um realista esperançoso – e viva o mestre Ariano Suassuna). Vou aproveitar o espaço para fazer algo que raramente faço: divulgar um livro para quem atua no mercado de capitais. Sem jabá, almoço ou cafezinho.

 

Trata-se de “Comissão de Valores Mobiliários – precedentes comentados”, Editora GEN-Forense, com vários autores, sob a organização de Gustavo Tavares Borba, Rodrigo Tavares Borba e José Gabriel Assis de Almeida.

 

Em mais de 600 páginas, lá tem de tudo: conflito de interesses, insider trading, aspectos contábeis, etc., bem organizados em capítulos por tema.

 

Esse livro eu vou levar para as assembleias, especialmente naquelas empresas que contratam figurões do direito societário para “espancarem” acionistas minoritários que insistem em fazer perguntas inconvenientes, como aquela feita na Av. Chedid Jafet: os executivos que lideraram o esquema de pagamentos indevidos para agentes públicos serão processados pela Companhia?

 

Abraços fraternos,

Renato Chaves

12 de novembro de 2021

Na Rua Sete de Setembro, pau que bate em Chico não bate em Francisco.

 


É fato que cariocas não gostam de dias nublados e que o mar não está para peixe, mas não se trata de incitar a violência. O ditado popular “pau que bate em Chico bate em Francisco” deve ser interpretado na nossa praia – o mercado de capitais – como “a lei e suas “pauladas” tem que valer para todos”.


Pois é, recordar é viver e quando li o artigo da jornalista Adriana Fernandes (veja a minha última postagem de 09/11 e o link https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,adriana-fernandes-cvm-jair-bolsonaro-privatizacao-petrobras,70003888751), imediatamente lembrei-me do caso do ilustre Claudio Salvador Lembo, processado pela CVM na qualidade de Governador e representante do Estado de São Paulo, acionista controlador do Banco Nossa Caixa S.A., 
por não ter sido preservado sigilo da informação antes da divulgação do Fato Relevante (processo administrativo sancionador CVM Nº RJ2007/11305 – disponível no link 
http://conteudo.cvm.gov.br/decisoes/2008/20080605_R1/20080605_D02.html).


A punição do ex Governador foi branda, pois ao assinar um Termo de Compromisso o “Chico” se comprometeu a publicar declaração reconhecendo a importância de as informações sensíveis e relevantes serem informadas corretamente, no seu devido tempo e de acordo com as normas que regulam a divulgação de informações. Merecem destaque os seguintes trechos da declaração:


"O declarante exorta todos os agentes políticos e gestores públicos a atuarem sempre de forma articulada com os canais institucionais da companhia aberta, especialmente com o Diretor de Relações com Investidores, notadamente quando for necessário ou conveniente, sob o ponto de vista político ou administrativo, dar publicidade a eventos relativos, em alguma medida, às operações sociais ou a mudanças na estrutura da propriedade acionária..... Enfim, o declarante reconhece que informações que possam ter impacto sobre a companhia aberta de economia mista devem, antes de serem aventadas publicamente pelo agente público, ser transmitidas ao mercado e à CVM pela própria companhia, por meio de sua administração."

 

Resumindo, quem fala pela empresa são os executivos, sob o comando do DRI.


Mas as palavras do ex Governador se perderam no vento, pois no ano da graça de 2021 a história se repete, com declarações repetidas e atabalhoadas de certa autoridade sobre o futuro de uma importante empresa listada. A composição do colegiado da CVM muda, dirão os doutores de plantão. E não teve Fato Relevante ... Sabemos disso, mas a abertura de processo parte da área técnica e não no colegiado.


O que vemos hoje é o questionamento burocrático da CVM sobre notícias vinculadas na imprensa, que são respondidas burocraticamente na linha “perguntei ao acionista controlador e ele não sabe de nada”. Só nos últimos 30 dias foram quatro “Comunicados ao Mercado” !!! Mas a empresa se viu obrigada a veicular anúncios em jornais e TVs para esclarecer a opinião pública sobre sua política de preços/incidência de impostos, custos altíssimos assumidos por todos os acionistas e não somente pelo causador do estrago, o acionista controlador.


Sendo assim, concluímos que, nos dias de hoje, o pau que bateu no Lembo (o Chico), deveria bater com a mesma intensidade no Messias (o Francisco), mas não bate. Aliás, atualmente o Xerife nem rosna, como nos afirma a jornalista no seu polêmico artigo.


E eu vou por aí, chutando pedras portuguesas soltas no calçadão de Copacabana, esperando ansiosamente a festa de retorno do Glorioso à série A e cantarolando “deixa a luz do sol bater na estrada, ilumina o asfalto negro” (Marisa Monte na música “Calma”).


Abraços fraternos,

Renato Chaves

6 de novembro de 2021

Está cada vez mais difícil explicar o mercado de capitais brasileiro.

 


Como explicar para um investidor estrangeiro que temos acionista controlador processando a empresa controlada? Tendo a corrupção como origem do caso, os valentes irmãos-controladores querem ser ressarcidos pelos gastos que tiveram com multas originadas em delação premiada. Ou seja, usaram a empresa para corromper e agora alegam que o ganho foi de todos os acionistas. Vamos dizer que nos pastos e no Congresso Nacional vale tudo?


E como explicar que um grupo é considerado inidôneo para contratar com o Estado do Paraná em um dia (28/10), no dia seguinte (29/10) ganha a concessão para explorar a estrada mais importante do país? A decisão no Paraná foi algo isolado, dirão os sábios doutores de plantão, mas o carimbo de empresa corruptora está lá, com direito a delação premiada e até fato relevante !!!


Acreditem, tem ex executivo de empresa listada que admite ter liderado um esquema que pagou US$ 250 milhões em propinas, foi condenado a 20 meses de detenção nos EUA, além de multa de US$ 2,2 milhões, mas não está inabilitado pelo nosso xerife. Como explica isso? Por essa e outras, como o uso de termos de compromisso para “engavetar” infrações graves (especialmente insider trading), é que o xerife vira chacota no mercado. Nos grupos de Whatsapp que discutem governança corporativa tem até meme com a figura de um xerife dormindo, visão também da jornalista Adriana Fernandes, que na sua coluna de 04/11/21 no jornal Estado de SP, afirma que a CVM “nunca teve dentes para morder. Mas agora não se dá nem ao trabalho de rosnar (https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,adriana-fernandes-cvm-jair-bolsonaro-privatizacao-petrobras,70003888751).”


Vamos falar de sustentabilidade... Como explicar que uma empresa envolvida em esquemas de corrupção (com parágrafo de ênfase dos auditores externos), e com provisões de R$ 9,2 milhões para futuras indenizações decorrentes de acidente geológico (com registro do tema como PAA - principais assuntos de auditoria), é convidada pela B3 a responder o questionário para definição do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE)?


E a transparência? Como explicar que as empresas brasileiras, de forma sorrateira, brigaram indiretamente contra o regulador na Justiça por anos para evitar a divulgação das remunerações mínima, média e máximas de seus Administradores?


Por fim, como explicar o amém do regulador para voto em conflito de interesses acachapante, permitindo o voto de executivos em assembleia para deliberar um contrato que previa pagamentos milionários para os próprios bolsos?


Como diria o ilustre pernambucano Lenine “às vezes parece até que a gente deu um nó” (na letra de “Hoje eu quero sair só”).


Abraços fraternos,

Renato Chaves

31 de outubro de 2021

Reforma da Instrução CVM nº 480: pressão na CVM.

 


Comecei o ano escrevendo sobre a reforma da ICVM 480, objeto da Audiência Pública SDM 09/20 (http://conteudo.cvm.gov.br/audiencias_publicas/ap_sdm/2020/sdm0920.html), e caminhamos para o final de ano sem novidades.


Basicamente a reforma da ICVM480 trata do assunto da moda: ESG. Prevendo a inclusão de indicadores sobre diversidade, entre outros tópicos, essa reforma já vem tarde; mas antes tarde do que nunca, diz o ditado.


Será que a CVM vai se curvar diante do “lobby do atraso”, exercido pela poderosa Abrasconi (Associação Brasileira de Controladores Inescrupulosos – contem traços de ironia) e seus amigos advogados (sim, escritórios de advocacia fazem parte de uma associação de empresas !!!)? Sugiro a leitura da pomposa carta de 24 folhas no link acima disponibilizado, uma verdadeira pérola do pensamento retrógado brasileiro, cheia de “em que pese a louvável iniciativa”.


Será que as empresas, protegidas no anonimato da filiação à famosa associação, irão promover uma batalha jurídica caso se torne obrigatória a divulgação, por exemplo, da “razão entre (i) a maior remuneração reconhecida no resultado do emissor no último exercício social, incluindo a remuneração de administrador estatutário, se for o caso; e (ii) a remuneração mediana dos empregados do emissor no Brasil, conforme reconhecida em seu resultado no último exercício social (item 14.3.d da minuta)”?


Pois é, uma vez aprovada a minuta constante da Audiência Pública a transparência virá e ajudará a desmascarar empresas que falam muito e fazem pouco sobre o S do ESG.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

23 de outubro de 2021

Conselhos de administração são como amígdalas? Lições do “caso B3”.

 


A pergunta provocativa, extraída de artigo do prof. Franklin A. Gevurtz que me foi apresentado pelo amigo Joaquim Rubens (disponível no link https://www.washingtonpost.com/opinions/2020/01/31/spare-me-outrage-about-hunter-biden-sanctimony-about-corporate-boards/), me levou à seguinte reflexão: aqui no Brasil, após o julgamento do “caso B3”, que tratou de suposto descumprimento da execução do plano de outorga de opções de compra de ações para funcionários e executivos (leia os votos e relatório no link https://www.gov.br/cvm/pt-br/assuntos/noticias/cvm-adverte-diretor-geral-da-bm-f-atual-b3-por-infringir-exigencia-determinada-na-lei-6-404-76-lei-das-s-a) ficou claro que o artigo 153 pode ser riscado da Lei 6404/76.


Fica decidido, a partir de hoje, que conselheiros de Administração, especialmente os medalhões do mercado, não precisam mais fiscalizar a atuação dos diretores executivos. No caso em questão, o CEO, tendo feito o que fez, ganhou uma singela pena de advertência, por conta de “a reduzida materialidade da alteração prevista nos aditamentos, bem como os bons antecedentes do Acusado”. Podemos aproveitar o embalo e também riscar o artigo 154 da Lei 6404/76.


Para um julgamento sério sobre descumprimentos de deveres fiduciários por Administradores só no dia que filmarem uma reunião de Conselho com todos dormindo.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

16 de outubro de 2021

Prisão nos EUA... e por aqui?


O assunto não é uma surpresa para quem investe na gigante petroquímica, já que a auditoria externa incluiu um parágrafo de ênfase na demonstrações financeiras de 12/2020.


A novidade foi a condenação do antigo CEO da Cia nos EUA: 20 meses de prisão e uma multa simbólica de US$ 2,2 milhões (https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/10/12/ex-presidente-da-braskem-condenado-a-20-meses-de-priso-nos-eua.ghtml).


Saiu barato para o meliante. A questão que não restou respondida é intrigante: quem mais, além do CEO, sabia do esquema de pagamento de propinas? Não tentem me convencer que as propinas de US$ 250 milhões, que saíram dos cofres da empresa listada (socorro, cadê o xerife ???), foram operacionalizadas somente pelo CEO. Será que membros da Diretoria sabiam? Todos ou somente alguns? E o conselho de administração sabia? Houve envolvimento do acionista controlador?


Como desdobramento dessas questões vai uma catucada no nosso regulador: quando esses ilustres meliantes serão inabilitados para atuarem como administradores de Cia. aberta?


Abraços fraternos,

Renato Chaves

9 de outubro de 2021

Quem vai tirar Zuckerberg do comando: os acionistas ou a Justiça.

 


O fato ocorrido na semana que passou me leva a refletir: e se fosse no Brasil? Como se tira um CEO que controla a Cia. com suas “ON gordas” (ações com voto plural)?


As acusações feita por uma ex funcionária do Facebook são gravíssimas e podem fazer o império desmoronar (https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2021/10/05/facebook-precisa-declarar-falencia-moral-diz-ex-diretora-no-senado-dos-eua.htm). Será?


Grandes acionistas, daqueles que apregoam aos 4 ventos que adotam o padrão ESG para selecionar investimentos, tomarão a iniciativa de derrubar o menino prodígio? Mas como? No voto é que não é, já que por lá o voto plural faz com que esses gestores gigantes, que chegam a gerir vários bilhões de dólares, mais pareçam gatinhos inofensivos.


Bem que os acionistas tentam (https://www.tecmundo.com.br/redes-sociais/142146-acionistas-independentes-querem-zuckerberg-fora-presidencia-facebook.htm), mas aposto minhas fichas nos “Chucks Rhoades” de lá (leia-se Departamento de Justiça dos EUA – o DoJ), ou seja, é mais fácil Zuckinho ir em cana do que perder o comando do império.


Agora imaginem, só imaginem uma situação dessas aqui no Brasil: pizza com o xerife, já que os terminhos de compromisso servem para isso, pizza na Justiça, como uma delação premiada aqui e outra acolá. E os grandes investidores daqui, assim como os de lá, estão mais interessados em rentabilidade. Dane-se o “E”, o “S” e o “G, já que continuam investindo em empresas que tem suas demonstrações financeiras maculadas pelo tema corrupção, como CCR (parecer do auditor externo KPMG com ressalva), JBS (parecer do auditor Grant Thornton trata o tema como PAA-principais assuntos de auditoria), Braskem (parecer do auditor Grant Thornton com parágrafo de ênfase) e Hypera (parecer do auditor PwC trata o tema como PAA).


Abraços fraternos,

Renato Chaves

3 de outubro de 2021

Conselhos de Administração no Brasil: mais do mesmo.

 

Nada a comemorar no mundo da governança corporativa, a não ser o 11º aniversário do Blog da Governança, com mais de 1 milhão de visualizações, isso sem propagandas, ferramentas de monetização, anúncios ou patrocínios.


Na semana que passou tive a oportunidade de participar de um painel do IBGC para seus conselheiros certificados, o “Fórum Governança contemporânea e Board Index 2021”, tendo como base para o debate o estudo anual sobre conselhos de administração da Spencer Stuart, elaborado com 211 empresas listadas no Brasil.


Tela cheia, com mais de 80 participantes, tratei de colocar lenha na fogueira com as seguintes provocações:


(i)                 A falta de diversidade é flagrante: nossos conselhos são formados, em sua imensa maioria, por homens brancos na faixa dos sessenta anos (e carecas rsrs). O percentual de mulheres aumentou, mas ainda é baixo quando comparamos com outros países (no Brasil 14,3% contra 11,5% no ano anterior – média internacional de 46,8%). Mas como uma mulher chegará a ocupar a posição de conselheira se existe “uma barreira invisível” que limita a ocupação de cargos gerenciais (sob o tema vale a leitura da matéria https://exame.abril.com.br/carreira/por-que-as-mulheres-nao-chegam-ao-board/ )? Espero que a reforma da ICVM 480 traga mais transparência para esse debate (apesar da posição contrária da associação de empresas listadas);

(ii)               Qual a diferença aceitável entre a remuneração do presidente do conselho e dos demais conselheiros (minha postagem de 17/9/21 traz números estarrecedores)?

(iii)             Avaliações de conselhos deveriam ser compartilhadas com todos os acionistas (61% das empresas pesquisadas fazem avaliação). No frigir dos ovos são eles que votam pela recondução, ou não, desses profissionais; essas avaliações não podem nascer e morrer nas gavetas dos conselhos;

(iv)             Comitês de assessoramento dos conselhos de administração (61% das empresas adotam pelo menos 1 comitê – 2,9 comitês por empresa na média) deveriam apresentar um resumo dos trabalhos desenvolvidos no ano para o conjunto de acionistas. As Assembleias devem ser um fórum de prestação de contas;

(v)               O percentual médio de conselheiros independentes no Brasil é baixo (40%) quando comparado à média internacional (58%). Se formos considerar somente os eleitos genuinamente pelos acionistas minoritários, excluindo os indicados por chapa única proposta pelas Administrações, esse número despenca;

(vi)             Por fim, um assunto “fora da pauta”, mas que está na moda, surgiu para finalizar o debate: o uso do voto plural no Brasil. Digo e reafirmo que, na forma como foi aprovado, tem casca de banana para os investidores. Isso porque a lei fugiu do que deveria ser o “caráter personalíssimo” que a posse dessas ações deve carregar. Podemos afirmar que houve uma interpretação poética e maquiavélica do conceito. As comparações com Facebook e outras empresas de tecnologia são inevitáveis: o visionário que criou a empresa deve ter carta branca para desenvolver o negócio, poderes quase absolutos (eu discordo !!!). Acontece que na nova Lei, se o visionário tem na origem do negócio um sócio detentor também de superONs (chamo de ON Gorda), ele pode vender suas ações para esse sócio financeiro (digamos o Fundo de Investimento Ganância), depois do IPO, sem que a cláusula de conversão automática das “ONs gordas” em ações “ON magras” seja disparado. Ou seja, o investidor dorme um dia acreditando que o visionário é o “negócio”, a pessoa que garantirá o sucesso do empreendimento, mas pode acordar no dia seguinte em uma empresa controlada por um astuto gestor/banco de investimentos. E isso ninguém merece.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

25 de setembro de 2021

Remuneração de Administradores: um tabu no Brasil.

 

A última postagem do Blog (dia 17/9/21 no link https://www.blogdagovernanca.com/2021/09/remuneracao-de-presidentes-de-conselhos.html), que revela diferenças absurdas entre conselheiros de administração nas empresas integrantes do Ibovespa, está dando pano para manga.


Recebi ligações, mensagens de Whatspp e e-mails com considerações diversas.


Por alguns sou visto como implicante, que tem bronca genérica com as remunerações pagas.


Outros amigos/leitores entendem que o assunto deve ser debatido com mais atenção.


Pois bem meus queridos leitores, o que eu busco é ligar o holofote sobre os conjuntos de valores pagos, de uma forma organizada, em uma só planilha. Penso que, com isso, os investidores teriam condições de comparar e, eventualmente, identificar grandes discrepâncias.


Teve gente que me avisou que a empresa remunera diferentemente seus conselheiros por conta das participações em comitês (no caso temos R$ 407 mil/ano x R$ 2,8 milhões/ano – “somente” 606% de diferença !!!); outro me ligou mencionando que o exercício de opções de compra de ações geraram essa diferença (de “somente” 71.050%). Teve ainda empresa alegando que essa situação (remuneração em ações) se trata de estimativa contábil, sem saída de caixa no ano.


“Tá legal eu aceito o argumento, mas não me altere tanto o samba assim”, já dizia Paulinho da Viola em “Argumento”; mas quando a maior fatia do bolo fica com o presidente do conselho, que também é sócio controlador, como fica?


Em recente contato com advogados de uma das maiores bancas do País me perguntaram como fazer para mitigar esse conflito de interesses; entendo que a distribuição da verba global, feita pelos conselhos de administração, deveria passar por um comitê de remuneração, que teria obrigatoriamente a maioria de seus membros “independentes”. A opinião desse comitê seria mandatória, sob pena de vermos prevalecer a máxima “farinha pouca meu pirão primeiro”.


Por fim, para quem gosta desse tipo de levantamento, vem aí um trabalho sobre a remuneração dos CEOs em tempos de pandemia. Nitroglicerina pura.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

 

P.S.: por motivos técnicos na ferramenta que uso para gerenciar o Blog vários comentários de leitores deixaram de ser publicados no tempo certo. Peço desculpas; uma vez identificado o problema respondi a todos.

17 de setembro de 2021

Remuneração de presidentes de conselhos de administração: falta bom-senso, sobra conflito de interesses.

 


O levantamento que fiz nos Formulários de Referência das empresas que compõem o Ibovespa, publicada parcialmente no artigo da jornalista Juliana Schincariol no jornal Valor do dia 13/9/21 (https://valor.globo.com/carreira/noticia/2021/09/13/por-que-remuneracoes-em-conselhos-variam-ate-70-000.ghtml), está dando o que falar.


Qual a diferença razoável entre a remuneração do presidente do conselho de administração e os demais conselheiros? 50%? 75%? 100%? Que tal 8.733%? É pouco? O que dizer então de 71.050%? Vejam a tabela (item 13.11 dos formulários de referência de empresas integrantes do Ibovespa – data-base 03/8/21) e reparem que a grande maioria das empresas apresenta variações acima de 100% (em amarelo - as variações acima de 100%; em laranja - variações acima de 1.000%).


Uma perguntinha inconveniente: esses agraciados presidentes de conselho votam na distribuição da verba global? Será que gritam “farinha pouca meu pirão primeiro” antes de proferirem seus votos? Não existe conflito de interesse a ser investigado pelo Xerife?


Mas eles estão reconhecendo as opções de ações que foram exercidas no período, estimativa contábil que não representa saída de caixa, dirão alguns DRIs. Ok, então abram mão desses “valores estimados”.


Fato é que temos por aqui a figura do conselheiro de 2ª categoria, cabendo aos grandes investidores cobrar explicações. Só espero que os DRIs não venham com aquela conversinha que a remuneração guarda relação direta com a responsabilidade do cargo: perante a lei os conselheiros são todos iguais.


Como diz o grande Lulu Santos “assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade”.

 

 

MENOR

MAIOR

AMBEV S/A

298.612,80

7.895.479,83

2544%

AZUL

21.000,00

8.911.031,00

42333%

B3

1.155.912,00

4.088.090,00

254%

BCO BRASIL

71.072,26

71.079,18

0,01%

BRADESCO

5.205.000,00

8.103.000,00

56%

BBSEGURIDADE

70.881,60

70.881,60

0%

MINERVA

360.000,00

535.281,91

49%

BTGP BANCO

324.793,75

4.800.000,00

1378%

BRADESPAR

120.000,00

120.000,00

0%

PETROBRAS DISTR

1.080.000,00

1.466.682,64

36%

BRF SA

480.000,00

12.878.285,10

2583%

BRASKEM

660.000,00

2.100.000,00

218%

BR MALLS PAR

253.289,30

770.855,76

204%

B2W DIGITAL

180.000,00

180.000,00

0%

CCR SA

583.798,22

722.230,07

24%

CIELO

84.000,00

676.800,00

706%

CEMIG

250.919,24

309.828,44

23%

COGNA ON

209.719,11

1.011.011,36

382%

CPFL ENERGIA

196.000,00

329.000,00

68%

COPEL

158.262,24

280.105,40

77%

CARREFOUR BR

695.100,00

755.100,00

9%

COSAN

259.200,00

1.628.000,00

528%

SID NACIONAL

216.000,00

216.000,00

0%

CVC BRASIL

335.900,00

548.800,00

63%

CYRELA REALT

384.533,28

3.370.701,00

777%

ECORODOVIAS INFRA

293.092,70

579.552,46

98%

ENGIE BRASIL

138.587,02

2.193.509,56

1483%

ELETROBRAS

65.284,32

78.341,16

20%

EMBRAER

296.851,00

1.918.125,00

546%

ENERGIAS BR

18.288,00

459.600,00

2413%

ENEVA

396.000,00

34.977.241,66

8733%

ENERGISA

54.127,67

238.671,54

341%

EQUATORIAL

418.677,54

1.433.136,42

242%

EZTEC

86.400,00

352.800,00

308%

FLEURY

541.043,00

1.133.150,00

109%

GERDAU

549.881,00

10.545.919,00

1818%

INTERMEDICA

40.000,00

45.000,00

13%

GERDAU MET

90.599,00

410.063,00

353%

GOL

29.468,04

468.446,05

1490%

HAPVIDA

247.425,00

2.426.336,82

881%

CIA HERING

272,82

853,81

213%

HYPERA

432.000,00

468.000,00

8%

IGUATEMI

72.000,00

432.000,00

500%

IRBBRASIL RE

576.294,04

624.262,32

8%

ITAUSA

550.000,00

9.575.115,00

1641%

ITAUUNIBANCO

2.643.000,00

10.392.000,00

293%

JBS

558.000,00

1.224.000,00

119%

JHSF PART

10.000,00

7.114.968,86

71050%

KLABIN S/A

979.021,04

1.094.178,62

12%

LOJAS AMERIC

213.207,00

693.207,00

225%

LOCAMERICA

260.000,00

320.000,00

23%

LOJAS RENNER

524.393,32

14.903.025,74

2742%

MAGAZ LUIZA

352.800,00

1.738.800,00

393%

MARFRIG

446.400,00

2.292.234,12

413%

MRV

240.000,00

11.303.919,00

4610%

MULTIPLAN

100.000,00

500.000,00

400%

GRUPO NATURA

1.227.100,00

66.170.800,00

5292%

P.ACUCAR-CBD

216.000,00

65.944.593,42

30430%

PETROBRAS

174.437,57

174.437,57

0%

PETRORIO

45.000,00

180.000,00

300%

QUALICORP CONS

760.000,00

1.180.458,30

55%

RAIADROGASIL

648.547,00

2.071.575,00

219%

RUMO S.A.

287.917,68

5.386.386,00

1771%

LOCALIZA

1.350.000,00

5.050.500,00

274%

SANTANDER BR

762.000,00

1.802.918,40

137%

SABESP

140.400,00

234.000,00

67%

SUL AMERICA

359.316,00

1.190.710,40

231%

SUZANO S.A.

960.004,80

8.247.042,26

759%

TAESA TR ALIANÇA

199.944,00

239.932,80

20%

TIM

624.000,00

1.236.000,00

98%

TOTVS

407.616,00

2.878.838,40

606%

ULTRAPAR

720.000,00

1.800.000,00

150%

USIMINAS

300.000,00

1.097.792,16

266%

VALE

697.332,64

1.515.887,77

117%

TELEF BRASIL

469.103,93

525.396,24

12%

VIAVAREJO

608.997,60

989.402,40

62%

WEG

412.688,38

1.333.919,76

223%

YDUQS PART

756.048,78

1.397.328,78

85%

 

Abraços fraternos,

Renato Chaves