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26 de fevereiro de 2022

Temporada de assembleias: o misterioso caso do desaparecimento de ressalva do auditor.

 

Começa a divulgação das demonstrações financeiras de 31/12/2021 e logo de cara temos uma surpresa de parar o trânsito em posto de pedágio de Seropédica.


E não é que a ressalva dos auditores feita nas DFs de 31/12/2020 simplesmente desapareceu, mesmo com a declaração da empresa envolvida em casos de corrupção de que o status dos processos não mudou. A única empresa do Ibovespa com ressalva nas DFs de 2020 agora está limpinha.


Disse o auditor (um big4) sobre as DFs de 31/12/2000 para justificar a ressalva: “No momento, não é praticável determinar se há perda provável decorrente de obrigação presente em vista de evento passado e nem fazer uma mensuração razoável quanto a eventuais novas provisões passivas sobre este assunto nestas demonstrações financeiras. Consequentemente, não foi possível determinar se teria havido necessidade de efetuar ajustes e/ou divulgações adicionais nas demonstrações financeiras individuais e consolidadas em 31 de dezembro de 2020 e informações correspondentes divulgadas para fins de comparação.”


Sobre as DFs de 31/12/2021 a Nota Explicativa da Administração afirma que: “As investigações das autoridades públicas não foram concluídas e, dessa forma, novas informações podem ser reveladas no futuro, sendo certo que tais investigações correm em segredo de justiça. No momento, não é praticável determinar se há perda provável decorrente de obrigação presente em vista de evento passado e nem fazer uma mensuração razoável quanto a eventuais novas provisões passivas sobre este assunto nestas demonstrações financeiras.”


Ou seja, nada mudou, exceto a opinião dos auditores (o sócio é o mesmo). Mais flexível que bambu.


Socorro Ibracon !!!


Acorda Xerife !!!


E tem gente acreditando que diversidade é eleger a esposa no conselho de administração. Haja “G” nesse ESG. Assunto para uma próxima postagem.


Abraços fraternos,

Renato Chaves


20 de fevereiro de 2022

Conselhos de Administração caros e inchados, CEOs fujões... quem paga a conta é o acionista.

 


O momento é propício para a discussão. A temporada de assembleias vem aí e até nos EUA a revolta os investidores já se torna visível. Quem diria que o topo poderoso Tim Cook seria questionado um dia? (veja no link https://noticias.plu7.com/173852/internacional/iss-pede-que-acionistas-da-apple-votem-contra-bonus-do-ceo-cook/).... Olha o “S” do ESG aí minha gente !!! Sem o glamour do “E” e do “G”, mas igualmente importante.


Pois bem, por aqui vemos conselhos de administração inchados, com até 11 membros, o que os torna colegiados improdutivos. Ou vocês acham que uma reunião repleta de “estelares” com voos marcados para 18h27 pode ser produtiva? Imaginem o duelo de egos de conselheiros que se acham semideuses com CEOs napoleônicos. E as imorais remunerações diferenciadas de presidentes de conselho? Qual o valor agregado por um chairman que ganha exatos R$ 12.878.285,10 no ano? Desafio a me apresentarem uma planilha com indicadores que justifiquem esse ganho galáctico, que chega a superar facilmente em mais de 2.000% a remuneração de outros membros nesses conselhos (veja na postagem de 17/9/21 no link https://www.blogdagovernanca.com/2021/09/remuneracao-de-presidentes-de-conselhos.html).


Juntamos as remunerações dos inúmeros comitês de assessoramento e a conta vira um orçamento à la Real Madrid com seus jogadores galácticos. Tenho a impressão que, em conselhos com membros estalares, a quantidade de comitês de assessoramento é maior. Parece que esse pessoal não gosta de meter a mão na massa.


O número ideal para um conselho de administração? Sete membros. Um número construído somente com observações, sem qualquer rigor científico. Mais do que isso vira colegiado inchado para acomodar interesses particulares de grandes acionistas, controladores e não controladores.


E os CEOs que assumem cargos de conselheiros em outras empresas, roubando horas preciosas de seu tempo de executivo? As régias remunerações pagas pressupõem dedicação integral ao cargo, 24x7 mesmo, e a justificativa mais ouvida por aí – ele poderá trazer negócios para a nossa empresa – chega a ser risível. Boas conexões comerciais podem nascer de relacionamentos entre executivos, é verdade, mas não necessariamente dentro de conselhos. Um almoço no Itaim ou um encontro casual no Iate Clube de Angra provavelmente trarão mais negócios do que um CEO de empresa de aviação trancado em salas de reuniões de uma empresa que mata frangos e porquinhos. Além disso, todo CEO de grande empresa tem uma visibilidade que lhe permite interagir facilmente com outros CEOs, sem precisar mostrar “cartãozinho de visita” de conselheiro de administração.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

12 de fevereiro de 2022

Demonstrações financeiras “fajutas”?

 


O desastre nas demonstrações financeiras vem aí, alertam os eméritos professores Eliseu Martins e Ariosvaldo dos Santos em artigo publicado no jornal Valor pelo jornalista Fernando Torres (veja o artigo no link https://valorinveste.globo.com/blogs/fernando-torres/post/2022/01/professores-ariovaldo-e-eliseu-alertam-para-balancos-de-2021.ghtml e a “Live do Valor” no link https://valor.globo.com/live/noticia/2022/01/28/live-do-valor-professores-ariovaldo-dos-santos-e-eliseu-martins-da-fea-usp-falam-sobre-o-impacto-da-inflacao-nos-balancos-de-2021-nesta-segunda-as-12h.ghtml).


A inflação de 10% ao ano assusta a todos na hora das compras no supermercado, mas parece que não assusta os investidores na leitura das demonstrações financeiras. Resultado: lucros “fictícios” com distribuição de dividendos “exageradas”, bônus maiores nos bolsos dos executivos, “destruição” do PL?


Como a Instrução CVM nº 191 não foi revogada, ninguém está proibido de publicar espontaneamente demonstrações financeiras em moeda de capacidade aquisitiva constante. Ou seja, não depende dos contadores e sim dos Administradores das empresas.


Vão dizer que a regra internacional só prevê esse tipo de publicação quando a inflação chega a 100% acumulado em 3 anos; um equívoco penso eu, já que 10% ao ano já faz um verdadeiro estrago após 3 anos - 100% significa terra arrasada. Acorda IASB !!!


Será que estamos diante de um caso de “cegueira coletiva deliberada”?


Abraços fraternos,

Renato Chaves

6 de fevereiro de 2022

Assembleias anuais: todo cuidado é pouco.

 


Fato nº 1: investidores olham somente a verba global destinada a remunerar os Administradores. Eventualmente olham nos formulários de referência o total de remuneração de cada órgão – conselho de administração, diretoria e conselho fiscal.


Fato nº 2: com uma inflação de 10% no ano as demonstrações financeiras sofrem na sua capacidade de transmitir a real situação das empresas.  O alerta vem dos professores Eliseu Martins e Ariosvaldo dos Santos, verdadeiros Papas da Contabilidade no nosso país, em artigo publicado no jornal Valor pelo jornalista Fernando Torres (veja o artigo no link https://valorinveste.globo.com/blogs/fernando-torres/post/2022/01/professores-ariovaldo-e-eliseu-alertam-para-balancos-de-2021.ghtml e na “Live do Valor” no link https://valor.globo.com/live/noticia/2022/01/28/live-do-valor-professores-ariovaldo-dos-santos-e-eliseu-martins-da-fea-usp-falam-sobre-o-impacto-da-inflacao-nos-balancos-de-2021-nesta-segunda-as-12h.ghtml). Assunto para uma próxima postagem.


Quando votam a verba global a ser paga aos Administradores no ano, geralmente os acionistas deixam passar debaixo dos seus narizes as escandalosas remunerações de alguns presidentes de conselhos de administração.


A cada nova safra de formulários de referência depositados na CVM eu publico uma relação entre a maior e a menor remuneração nos conselhos (vejam a postagem 17/09/21 – disponível no link https://www.blogdagovernanca.com/2021/09/remuneracao-de-presidentes-de-conselhos.html), que revelam diferenças abissais. Existem conselheiros classe AAA e outros na classe D.


Nesse caso o dilema de Tostines não se aplica (Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?), ou seja, os presidentes de conselho ganham muito simplesmente porque a empresa é grande; agregam muito pouco, ou quase nada. R$ 12 milhões/ano para coordenar um colegiado? No final do dia, se ocorre um acidente na empresa, quem dá a cara para as autoridades e imprensa são os executivos. Como diria um amigo baiano conselho de administração é uma “entidade” – todos na empresa sabem que existe, mas ninguém nunca viu em carne e osso. Perguntem aos analistas os nomes dos presidentes de conselho das empresas que acompanham. Ou então me digam, quantos presidentes de conselho saem detrás de suas mesas para participar de uma AGO? Pouquíssimos, já que a grande maioria se acovarda e prefere contratar a peso de ouro advogados “maus” para tratar os investidores com uma borduna na mão. Por outro lado esses seres diferenciados são os primeiros no portão de embarque quando tem um Investor Day em NY; classe executiva e sem escalas, é claro. Enquanto isso a turma que realmente faz o evento acontecer, o bravo pessoal de RI, vai de classe econômica com uma agradável parada de 4 horas em Miami.


Voltando aos números, desta vez trago um estrato com os presidentes de Conselho que recebem mais de R$ 1,5 milhão por ano nas empresas que compõem o Ibovespa.


Isso acontece principalmente por duas razões: ou o presidente do conselho de administração é o próprio acionista controlador, situação mais comum, ou é alguém de extrema confiança dos acionistas controladores – em bom português “faz parte da panela”. Reparem que a remuneração não guarda qualquer relação com a complexidade/tamanho do negócio.


 

MAIOR REMUNERAÇÃO NO CAdm (em R$)

AMBEV S/A

7.895.479,83

AZUL

8.911.031,00

B3

4.088.090,00

BRADESCO

8.103.000,00

BTGP BANCO

4.800.000,00

BRF SA

12.878.285,10

BRASKEM

2.100.000,00

COSAN

1.628.000,00

CYRELA REALT

3.370.701,00

ENGIE BRASIL

2.193.509,56

EMBRAER

1.918.125,00

ENEVA

34.977.241,66

GERDAU

10.545.919,00

HAPVIDA

2.426.336,82

ITAUSA

9.575.115,00

ITAUUNIBANCO

10.392.000,00

JHSF PART

7.114.968,86

LOJAS RENNER

14.903.025,74

MAGAZ LUIZA

1.738.800,00

MARFRIG

2.292.234,12

MRV

11.303.919,00

GRUPO NATURA

66.170.800,00

P.ACUCAR-CBD

65.944.593,42

RAIADROGASIL

2.071.575,00

RUMO S.A.

5.386.386,00

LOCALIZA

5.050.500,00

SANTANDER BR

1.802.918,40

SUZANO S.A.

8.247.042,26

TOTVS

2.878.838,40

ULTRAPAR

1.800.000,00

VALE

1.515.887,77


É de arrepiar os cabelos, não é?


Abraços fraternos,

Renato Chaves