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10 de maio de 2021

Empresas corruptoras e a abordagem das auditorias externas.

 

Ao pesquisar todos os pareceres de auditorias externas nas empresas que compõem o Ibovespa, me surpreendi com o tratamento dispensado ao tema corrupção.


Reparem no quadro abaixo que somente uma empresa recebeu ressalva em sua demonstração financeira, apesar da situação similar em todas elas, com ex executivos tratando com autoridades delações/acordos de não persecução civil/acordos de leniência que ajudarão a esclarecer o tamanho de cada esquema de corrupção.


 

Empresa*

Status do parecer do auditor

Auditor externo

Pequenas moedinhas, grandes propinas para alçar voos mais altos

Com ressalva

KPMG

A empresa do eteno que faz a terra tremer

Parágrafo de ênfase

Grand Thornton

Alcatra de 1ª

Parecer “limpo” – somente a menção como PAA – Principais Assuntos de Auditoria

Grand Thornton

Comprimidos que trazem alívio

Parecer “limpo” – somente a menção como PAA – Principais Assuntos de Auditoria

PwC

Pequenas moedinhas, grandes propinas (com imigração)

Parecer “limpo” – somente a menção como PAA – Principais Assuntos de Auditoria

PwC

* As empresas tiveram seus nomes preservados/fantasiados para evitarmos retaliações jurídicas contra o Blog, sugestão de um grande amigo advogado vascaíno-niteroiense. Usem, por favor, a criatividade para inferir os nomes ocultados.


Ou seja, uma única firma de auditoria fez “jogo duro”, carregando na tinta, com as demais auditorias variando entre 2 graus de miopia (parágrafo de ênfase) e 5 graus, colocando o assunto como PAA.


Fica a provocação para os investidores: depois da leitura do trecho do parecer do auditor que usou mais tinta, não bate um friozinho na barriga com o potencial de estrago futuro – perda certa, só não se sabe o tamanho do rombo? (texto extraído do parecer depositado na CVM “no momento, não é praticável determinar se há perda provável decorrente de obrigação presente em vista de evento passado e nem fazer uma mensuração razoável quanto a eventuais novas provisões passivas sobre este assunto nestas demonstrações financeiras. Consequentemente, não foi possível determinar se teria havido necessidade de efetuar ajustes e/ou divulgações adicionais nas demonstrações financeiras individuais e consolidadas em 31 de dezembro de 2020 e informações correspondentes divulgadas para fins de comparação”)


Definitivamente, temos algo de podre nos acostamentos/curvas, fábricas fétidas, pastos e farmácias desse Brasil, tudo no índice Ibovespa, ou seja, os investidores esquecem o discurso “blábláblá ESG/ASGI” e compram esses papéis para reproduzir o índice.


Abraços fraternos,

Renato Chaves

2 de maio de 2021

Assembleias no Brasil: mais do mesmo.

 

Em recente webinar do ICGN, um dos palestrantes classificou as assembleias de acionistas como eventos frustrantes (veja no link https://www.icgn.org/events/future-agms-0). Se lá fora, com todo o ativismo dos investidores institucionais, o sentimento é de frustração (leia mais sobre um Buffett “pressionado” no link https://www.nytimes.com/2021/04/30/business/dealbook/buffett-climate-diversity.html), eu diria que por aqui vivemos em estado de desventura.


Mais uma safra de assembleias (só participei de eventos virtuais – nada de boletins de voto) e vem a 1ª constatação: são eventos construídos por advogados, para advogados e que resultam, quase sempre, na emissão de uma bela nota fiscal por advogados externos à Cia., que assim garantem uma nababesca “remuneração-extra-garantida” no mês de abril. Geralmente esses profissionais, “ex xerifes do mercado”, assumem a presidência dos trabalhos com a magnânima proteção do órgão regulador (inclusive no colegiado só tem advogado...), que já declarou que presidentes de assembleias são seres inimputáveis, praticamente deuses do Olimpo. Outras vezes, esses profissionais “deixam” um presidente-figurante assumir a presidência da reunião e atuam como secretários poderosos, para então conduzirem a assembleia com mão de ferro diante de um presidente mudo. 


Como se não bastasse, agora criaram a figura de “co secretário”, ou seja, profissionais externos que comandam a assembleia sem o risco de sujar as mãos, caso seja necessário “esbofetear” algum acionista minoritário “rebelde”, no melhor estilo segurança de supermercado de empresa listada na B3. Merece registro o estranho fato de que, em empresas problemáticas, o nome desse tal “agente externo” é suprimido da ata, sabe-se lá com que interesses, como no caso da empresa que arrecada pequenas moedinhas para pagar grandes propinas, com direito à ressalva dos auditores externos nas demonstrações financeiras.


A 2ª constatação é um reflexo da 1ª: as estruturas internas das empresas são inoperantes (por ordem de “alguém”?), salvo raríssimas exceções. Cadê o presidente do conselho de administração, o diretor jurídico? E mais: CEOs, CFOs e demais executivos aparentemente evitam interagir com acionistas; quando muito encaram uns analistas novinhos e bem serenos na reunião trimestral de apresentação de resultados. Cadê o chat de perguntas antes da AGO? Muita espuma e pouca ação.


De um lado executivos que acreditam piamente que não devem satisfação a ninguém; de outro lado temos investidores que cumprem a agenda burocrática de aprovação de contas e eleição de conselheiros (salvo raras exceções), em movimentos espasmódicos. Ou será que alguém ouviu falar que investidores da grande empresa de varejo estão questionando o uso indevido, por anos a fio, de recursos da Cia. pelos acionistas controladores em suas esbórnias pra lá de privadas, mas que eram pra lá de públicas na sede da Av. Conde Francisco Matarazzo, São Caetano do Sul (SP)?


Como diria Lulu Santos em “Tudo igual”:

Então desmonta logo esta máscara
Voltemos à estaca zero
Fica tudo igual normal...


Abraços fraternos,

Renato Chaves