Boas-vindas

Caro visitante,
A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço independente (sem patrocínios ou monetização digital) pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

29 de fevereiro de 2020

Squadra inova com coragem.


Que as empresas brasileiras não gostam de questionamentos todos já sabem.

Não é à toa que contratam advogados ilustres para comandarem as suas assembleias, verdadeiros cães de guarda prontos para enfrentar acionistas que ousem apresentar questionamentos. Um verdadeiro exército, estilo guarda pretoriana: qualquer comparação com Darth Vader não é mera implicância. 

O que faz sucesso na Faria Lima e na Dias Ferreira são os relatórios/cartas de gestoras com as chamadas "teses de investimento", onde apresentam os fundamentos que suportam a manutenção de uma posição relevante em suas carteiras: sobram elogios ao negócio e à alta administração e faltam sinais de alerta. A cada leitura o investidor acredita que a asset descobriu a fórmula da pólvora negra.

Aí vem a Squadra e inova ao questionar, de forma contundente, as práticas contábeis de uma empresa queridinha do mercado (leia mais em http://www.squadrainvestimentos.com/pdf/relatorio-2019.pdf e http://www.squadrainvestimentos.com/pdf/carta-2019.pdf). São argumentos sólidos para justificar porque acreditam que o papel está "caro", deixando bem claro que "apostam" na queda, algum incomum no nosso mercado.

É proibido? Claro que não. Eles são transparentes ao afirmar que tem como filosofia a "busca por distorções significativas de preços". Será que o regulador vai meter o bedelho? A conferir. A empresa errou ao conversar reservadamente com alguns poucos investidores para questionar a asset? Entendo que sim, pois deveria fazê-lo publicamente... Boa oportunidade para perguntar: cadê os chats com investidores previstos na regra que criou o Formulário de Referência e que ninguém utiliza? Está lá no item 12.2 do Formulário a pergunta se a empresa utiliza "fóruns e páginas na rede mundial de computadores destinados a receber e compartilhar comentários dos acionistas sobras as pautas das assembleias".

Não vou entrar no mérito se os questionamentos estão corretos ou não, pois isso demandaria um tempo enorme para entender as práticas contábeis de um setor complexo e falta-me tempo nesse período de aprovação de demonstrações financeiras anuais. Nem os jogos do meu querido Glorioso tenho assistido.

Não conheço ninguém na gestora, mas o fato é que o relatório/carta é robusto e merece atenção.

Fica registrado meu singelo apoio. Ousar lutar a boa batalha não é para qualquer um, especialmente nos dias de hoje.

Última cutucada: será que o caso tem relação com a renúncia do presidente do conselho de administração? A conferir.

Abraços a todos,

Renato Chaves

21 de fevereiro de 2020

G.R.E.S. Insiders do Amanhã.



Olha o refrão:

“Liberdade, liberdade,
abre um termo de compromisso sobre nós,
que a clemência desse DARF
solte pra sempre a nossa voz”.

Segura o breque.... Concentração na Rua Sete de Setembro, em frente à Loja Magal.

Aproveitando o embalo de carnaval os insiders vestem a fantasia de picaretas do mercado de capitais e pedem passagem.

Levanta, sacode a poeira, negocia umas ações com informação privilegiada e dá a volta por cima, com um terminho de compromisso sem confissão de culpa.

Diretor vice-presidente de empresa de aviação negociando ações dois (!!!) dias antes da divulgação de fato relevante? Qual a desculpa? Já sei, estava em voo, sem conexão, não sabia de nada. Êpa, peralá, agora não tem wifi no céu azul de brigadeiro? Relaxa comandante, nada que um terminho de compromisso de R$ 150 mil não resolva.

A ferramenta está tão vulgarizada que tem DRI da empresa com nome de whisky que negocia ações antes da divulgação do ITR, faz acordo de R$ 220 mil e depois desiste “em virtude dos valores” !!!

Segura o tranco porque a Mangueira pede passagem.

Bom carnaval a todos,
Renato Chaves

15 de fevereiro de 2020

O crime compensa, pelo menos no mercado de capitais.



Quanto a empresa de “research publicações Ltda.”, com sua bendita garota propaganda, pagaria por uma agressiva campanha de marketing, aproveitando o boom do nosso mercado para alavancar o seu negócio de análise de valores mobiliários não registrado como negócio de análise de valores mobiliários? R$ 4,250 milhões? Saiu barato esse terminho, não é? Não paga 15 minutos nos intervalos dos BBBs da vida...

Em outros jurisdições essa turminha teria amargado um par de dias em Bangu 8. Com posterior inabilitação, claro.

Fato é que os garotos praticus da Faria Lima curtiram/zombaram com a cara do xerife por meses, e tudo terminou em pizza, mas “sem confissão de culpa” é claro.

Infração grave tem que ser julgada, nada de empurrar pra debaixo do tapete.

Outras Betinhas serão bem-vindas na 7/9, mas desde que tragam um polpudo cheque na mão para pagar o DARF do terminho de compromisso.

Mas cuidado meninas bestinhas, para chegar na 7/9 com suas vistosas bolsas Louis Vuitton tem que passar pela Freguesia da Glória, pelo Convento de Santo Antônio e pela Faixa de Gaza (bucólica área do Centro do Rio que registra a marca de 5 furtos por hora), cortando caminho pelo Edifício Avenida Central, o 1º prédio do Rio erigido em estrutura metálica no lugar do Tabuleiro da Baiana (o Blog da Governança também é cultura rs *).

Em tempos de águas fétidas cariocas e crimes hediondos gestados nos escritórios da Faria Lima, nunca é demais repetir Caetano: “Purificar o Subaé, mandar os malditos embora”.

Abraços a todos,
Renato Chaves

* P.S.: um amigo de longa data, leitor assíduo do Blog, flamenguista da melhor cepa e carioca de coração, fez o seguinte alerta: o edifício foi realmente o 1º arranha-céu construído no Rio com estruturas metálicas (“aço de Volta Redonda”), mas foi erguido onde se situava o antigo edifício do Hotel Avenida e a Galeria Cruzeiro, sendo que ponto terminal de bondes da Zona Sul, conhecido como Tabuleiro da Baiana, ficava ali perto, próximo à Rua Senador Dantas. Valeu o alerta amigo.

7 de fevereiro de 2020

Os coveiros rondam o Novo Mercado.



Crônica de uma morte anunciada: esse poderia ser o título da postagem, em homenagem ao primoroso livro do gigante Gabo.

Criado com uma régua de exigências mais alta para atrair investidores preocupados com as boas práticas de Governança Corporativa, o Novo Mercado no Brasil caminha para um triste fim, a depender dos engravatados rapazes dos bancos de investimentos, da nossa pomposa bolsa de valores e de alguns outros atores importantes, como a famosa associação de empresas (leia-se controladores inescrupulosos escondidos por trás de uma confraria), os assessores jurídicos e alguns conselheiros-celebridades.

Os rapazes dos bancos de investimentos querem é vender, garantir o leite das crianças (o milk melhor dizendo) e um novo Rolex no pulso, substituindo aquele que foi roubado na saída de Congonhas: dane-se o mundo que eu não me chamo Raimundo, e por tabela dane-se a tal governança corporativa.

A nossa bolsa estimula o debate, de forma até envergonhada, com o discurso de que se as regras não forem flexibilizadas as empresas abrirão capital lá fora. Que tal mexer nos custos de manutenção de uma empresa listada ao invés de esculhambar o modelo de governança corporativa “uma ação um voto” que alinha acionistas?

Que tal dispensar as empresas listadas do relatório do auditor externo nos ITRs, barateando o contrato, lembrando que o texto padrão dos auditores afirma que o documento “não expressa uma opinião de auditoria”? É como chegar ao consultório médico espirrando muito, responder 3 perguntas (à distância.. nesses tempos de Coronavírus) e o médico afirmar que você está gripado, mas que aquela não é uma opinião médica.

Vale lembrar que o meu real é igual ao seu real, caro Guilherme. Como dizia Bezerra da Silva “malandro é malandro e mané é mané”.

Os assessores jurídicos escrevem qualquer coisa para justificar o polpudo cheque, que por sua vez garante a mansão-ostentação em Nogueira ou adjacências.

A fórmula é captar com pouco custo, com grande dispersão acionária, o que garante zero de interferência na gestão... o melhor dos mundos para administradores desalinhados e pouco avessos à modelos sérios de prestação de contas. Quem habita o condado do Leblon se lembra daquela empresa cuja AGO durou mais de 8 horas, com acionistas questionando o CEO maratonista que conseguia a proeza de adotar o modelo "remuneração excessiva-performance pífia"... Isso sem falar nos controladores inescrupulosos reunidos para o cafezinho na Av. Santo Amaro, Jardim Paulista.

Ao copiar o modelo norte americano de ações com super voto, os coveiros do Novo Mercado buscam dourar a pílula com promessas feitas em slide PowerPoint, privilegiando a falta de transparência, com acionistas impedidos de solicitar informações, afinal que não tem voto não tem voz... simples assim.

Será que o nobre deputado que propõe essa aberração entende que o arcabouço jurídico que protege o investidor nos EUA é igual ao nosso? Que a nossa CVM está tão equipada quanto a SEC? Temos que garantir a permanência dos fundadores, sem eles o negócio desanda, afirmam os fariseus... Mas peralá, a empresa já tem mais de 10 anos na praça !!! Aqui se cria até contrato para justificar o pagamento de R$ 160 milhões para fundador não competir com a empresa !!! Argumentos falaciosos que buscam dissimular a nossa dura realidade.

AMEC já se manifestou contra, esperamos uma posição firme do IBGC contra mais essa aberração.

Por aqui, no condado de Copacabana, tem muito estoque de bambu e, consequentemente, muita flecha.

Abraços a todos,
Renato Chaves

1 de fevereiro de 2020

Assembleias de acionistas no Brasil: tem que melhorar muito para ficar ruim.



Como assíduo frequentador de assembleias gerais de acionistas desde 1996 posso afirmar, sem medo de errar: são eventos burocráticos para “cumprir tabela”, como se diz no mundo do futebol.

Mas agora, com o novo boom (ou seria bolha?) de entrada de acionistas pessoas físicas no mercado de capitais, as áreas de RI tem um desafio pela frente: como transformar as bolorentas assembleias em eventos de interesse para esses novos acionistas. Eu diria até que o desafio é transformar esse tipo de vento em um canal de formação de acionistas-propagandistas, que irão disseminar a satisfação de investir em determinada empresa, algo que vai além dos dividendos distribuídos.

Esse foi o foco da matéria da jornalista Ana Paula Ribeiro, publicada no site Infomoney no dia 28/1/2020 (https://www.infomoney.com.br/onde-investir/salto-no-numero-de-pessoas-fisicas-em-grupo-de-acionistas-impoe-mudancas-a-empresas-da-bolsa/).

Você, querido novo investidor, que pensa que vai chegar à sede da empresa e ouvir dos administradores (seus empregados – você é o patrão !!!) uma convincente prestação de contas sobre as demonstrações financeiras, vá tirando o seu cavalinho da chuva. 

Com executivos mudos, o que te espera é um conjunto de elegantes advogados com seus ternos italianos, regiamente remunerados (precisa contratar advogado externo? Cadê o jurídico da Cia?), que geralmente formam um exército (nunca andam sozinhos) pronto para atacar com uma verborragia sem fim, ao menor sinal de questionamento por parte de acionistas minoritários. E agora esses mesmos advogados, na figura de consultores de emissões, ainda querem empurrar no nosso mercado as chamadas ações com “super voto”, assunto que merece uma postagem especial de tão vergonhoso que é.

Sabe aquela assembleia que você assistiu na WEB, com o Warren Buffett e seu fiel escudeiro Charlie Munger respondendo pacientemente por mais de 6 horas (!!!) perguntas de entusiasmados acionistas (reveja no link a partir do 32º minuto https://www.youtube.com/watch?v=VCwIAnjAqiM)? Esqueça, aqui no Brasil assembleias demoradas duram no máximo 30 minutos. Pode passar desse tempo, a depender da perícia do estagiário do escritório de advocacia no comando do computador (se der errado já temos um culpado), além de um eventual engasgo da impressora.

Desafio a me apresentarem uma única empresa listada no nosso mercado que responda positivamente a pergunta do Formulário de Referência – item 12.2.j: a empresa disponibiliza fóruns e páginas na WEB  destinados a receber e compartilhar comentários dos acionistas sobre as pautas de assembleias?

É isso, o teatro é montado para não ter debate; na grande maioria das vezes uma AGO imita assembleia de condomínio: quem for a favor da aprovação da matéria permanece como está... todo mundo parado por infindáveis segundos.

Abraços a todos,
Renato Chaves