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19 de abril de 2020

O blábláblá de gestores sobre os princípios ASG.



São cada vez mais frequentes declarações de gestores e de reguladores sobre a importância dos princípios de ASG no processo de seleção de ativos. Alguns incluem a letra I, de integridade, e assim empresas com boa governança, íntegras e seguidoras de boas práticas ambientais e sociais seriam privilegiadas pelo mercado. O jornal Valor, em suas edições dos dias 17/4 e 20/3, traz algumas dessas declarações.

Mas será mesmo que o discurso é coerente com a prática?

Vou me ater ao aspecto governança corporativa, a praia que eu gosto. Quando vejo gestores falarem do aspecto integridade confesso que o sangue ferve, afinal empresas corruptoras continuam recebendo investimentos via mercado de capitais como se nada tivesse acontecido em passado recentíssimo (algumas ainda negociam acordos com as autoridades). Essas empresas criam uma diretoria de compliance, demitem todos os executivos que hipoteticamente criaram o esquema de corrupção à revelia do conselho de administração (a turma amiga do príncipe baiano não sabia de nada kkk), nomeiam novos conselheiros de administração com bom pedigree (normalmente ex reguladores ou ex CEOs famosos), ou seja, dão um “tapa” na aparência e tudo fica como dantes no Quartel D’Abrantes. Mas isso é assunto para outra postagem.

Vamos falar de remuneração, abuso de acionistas controladores na divisão da verba global aprovada na AGO?

Queridos leitores, parece razoável pagar para o presidente do conselho de administração remunerações até 18.000% acima da menor remuneração recebida por outro conselheiro? Remuneração galáctica justificada única e exclusivamente pelo passado brilhante do fundador, hoje ocupante da presidência do conselho? Vale lembrar que a legislação nos diz que conselheiros de administração tem os mesmos deveres, não existem super conselheiros ou conselheiros categoria A ou B. Será que temos vários Bill Gates espalhados por aí, cientistas de foguete para Marte, são flores raras no deserto do Atacama? Ou será que recebem remuneração diferenciada simplesmente porque são acionistas controladores ou ligados aos grupos de controle? Vejam alguns exemplos nessa tabela com dados de 2018, extraídos dos últimos formulários de referência depositados na CVM.


Maior
Menor
DIF %
AMBEV
 R$   8.659.261,70
 R$    484.455,99
1687%
AZUL
 R$ 12.853.920,00
 R$       7.000,00
183527%
BRADESCO
 R$ 27.684.000,00
 R$ 4.325.625,00
540%
BTG
 R$   4.800.000,00
 R$    206.750,00
2222%
Brasilagro
 R$   2.962.760,68
 R$    235.864,21
1156%
Cia Bras Distr
 R$   6.380.144,00
 R$     92.400,00
6805%
CYRELA
 R$   3.351.942,00
 R$    243.636,00
1276%
DASA
 R$   3.631.778,67
 R$    390.000,00
831%
Equatorial
 R$   2.534.398,26
 R$    180.000,00
1308%
Gerdau
 R$   9.029.427,00
 R$    519.421,00
1638%
Itau
 R$ 12.941.000,00
 R$ 2.652.000,00
388%
Localiza
 R$ 10.954.730,47
 R$    964.543,57
1036%
MRV
 R$   6.465.781,00
 R$    225.000,00
2774%
Natura
 R$ 28.784.300,00
 R$ 1.236.300,00
2228%
Porto Seguro
 R$   8.498.780,00
 R$    348.780,00
2337%
São Carlos
 R$   6.547.942,19
 R$     78.700,00
8220%
Suzano S.A
 R$   7.232.604,12
 R$    270.548,98
2573%
Santher
 R$   3.411.296,28
 R$    204.000,00
1572%

Sejamos sinceros, ninguém consegue, individualmente, em um conselho de administração que se reúne mensalmente com 11, 12 conselheiros (para que tanta gente? 7 , no máximo 9 conselheiros dão conta do recado !!!), agregar valor à Cia. que justifique uma remuneração anual de R$ 28 milhões. Até porque conselheiros de administração estão ali para atuarem como “freios” dos executivos, monitorando riscos e definindo políticas gerais corporativas. 
Contratar as pessoas certas e estimular esses executivos a inovar tem valor? Claro. Mas quanto isso gera de EBITDA? Não conheço quem tenha medido esse suposto ganho. Participam da construção de uma estratégia vencedora, liderando o processo de planejamento estratégico da Cia.? Ok, merecem uma remuneração justa, compatível com o risco de ser administrador de uma empresa grande. Mas até sobre esse aspecto cabe a seguinte reflexão: em caso de uma situação de calamidade, como um grande acidente ambiental, quem vai para delegacia é o CEO, nunca o presidente do conselho. Alias, façam um teste: perguntem para os analistas desses mesmos gestores os nomes dos presidentes dos conselhos de administração das empresas que eles acompanham... Vai ter gente gaguejando, pedindo ajuda para o Google ou para o amigo estagiário. Ou seja, não só porque a empresa é muito grande que se justifica o pagamento de cifras descoladas da realidade da própria empresa.

Se ganham isso tudo é porque a política de remuneração foi construída para beneficiar única e exclusivamente o presidente do Conselho de Administração. Poderíamos classificar como uma mamata corporativa recheada de conflito de interesses: muitas vezes o acionista controlador (como pessoa jurídica) aprova a verba global na AGO e depois vota a distribuição da verba no Conselho de Administração, destinando a maior fatia do bolo para seu o bolso, pessoa física. Não tomam nem o cuidado de se absterem na votação dentro do Conselho.

Em português claro: é uma forma de pagar dividendos extras para essas “flores do deserto”, de uma forma disfarçada.

Quando divulgarem as informações de 2019 vai ser interessante, pois teve acionista controlador que saiu da presidência do conselho e colocou um conselheiro independente no lugar... Será que o novo chairman vai ganhar os mesmos R$ 10 milhões? Vou ficar de olho...
E como ficam os gestores? O discurso casa com a prática? Eles seguem os princípios de stewardship? Ou tomam conta do dinheiro dos outros de forma passiva, burocraticamente? (leia mais no site da AMEC - https://www.amecbrasil.org.br/stewardship/sobre-stewardship/)?

Raras vezes um gestor questiona as remunerações nababescas de executivos. Alguns votam contra a verba global na AGO, mas só isso. Votam calados. Nenhum pedido de informações, muito menos registro de voto.

Ativista raiz, gestor com G maiúsculo, deposita voto contrário na assembleia, não se limita a votar contra e fazer propaganda enganosa por aí.

Um abraço fraterno,
Renato Chaves

#FiqueEmCasa

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