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8 de julho de 2011

Motivos para o investidor institucional ficar longe do mundo do futebol.

Caros leitores acreditem: a postagem de hoje não é uma provocação aos ilustres expositores da palestra mensal do IBGC que tratará do tema “Governança Corporativa nos Clubes de Futebol: o pontapé inicial”, no dia 28/7. Infelizmente o evento acontecerá na sede financeira do Império (em Sampa), o que reduz minhas chances de comparecer. Mas comecei a rascunhar a presente postagem antes mesmo da eliminação injusta e precoce do meu querido Glorioso na Copa do Brasil e só não a publiquei por conta da prioridade dada à “Batalha dos Croissants” (ou o embate entre a nova versão do Inspetor Clouseau e o “AlainDelon marombado”). E quais os “ofensores” que me levaram a enveredar por tema mais árido do que montanha andina de 5000 metros? Certamente a leitura de inúmeras matérias na imprensa que jogam cinzas vulcânicas sobre o mundo da bola, mas principalmente uma conversa que tive com um renomado ex-atleta e ex-dirigente.

O mercado do futebol, movido pelas paixões de milhões de torcedores mundo afora, chama a atenção pelas milionárias cifras “envolvidas”. Entre aspas, pois a completa falta de transparência não nos permite confirmar certas notícias de jornal, como por exemplo, o salário mensal de R$ 1,2 milhão para o jovem jogador nascido nos pampas que aterrissou nas praias cariocas em sua fase pré-aposentadoria (deve ter muito CEO se lamentando porque abandonou a escolinha de futebol do Clube Pinheiros ou o futsal do carioca Magnatas). Outro caso interessante: um jogador que atravessou o oceano para encerrar a carreira com um bronzeado carioca estaria ganhando um pouco menos, segundo jornalistas (sempre eles...): R$ 9 milhões/ano (Ôps: os jogadores/técnicos deviam criar um Ibef do B - Instituto Brasileiro dos Endinheirados do Futebol do Brasil para impedir a divulgação irresponsável desses números pelos invejosos!!!). Até ai tudo bem, o Blog da Governança e a Governança Corporativa não têm nada com isso. Mas, dizem as más línguas, boa parte do pagamento mensal seria “suportado” pela empresa patrocinadora do clube (abre parênteses: o presidente da empresa patrocinadora é torcedor fanático do mesmo clube >> zero de conflito de interesses...) e feito diretamente, acreditem, para uma ONG criada pelo atleta... Parece crônica do saudoso Nelson Rodrigues, ainda mais se considerarmos que o clube em questão é o campeão de dívidas no Brasil (mais de R$ 300 milhões), sendo boa parte pela falta de pagamento de encargos retidos (INSS e IR) e dívidas trabalhistas. Aprendi nas aulas de Contabilidade Tributária que não recolher INSS e IR retidos na fonte é crime... Como diria certo narrador futebolístico da nova safra: Que beleza !!! (por sinal faz mais sucesso que o egocêntrico narrador da TVplinplin).

Mas o fato é que, por mexer com milhões de potenciais consumidores, trata-se de um mercado que atrai patrocinadores de peso e que, mais recentemente, passou a atrair investidores organizados, seja para atuar na negociação de passes de jogadores (os chamados direitos federativos) ou na construção e exploração comercial dos estádios (rebatizados com o pomposo nome de arena).

Quando era dirigente de um importante investidor institucional (fundo de pensão) tive a oportunidade de conversar informalmente com o presidente de um clube carioca que estava sondando o mercado para, quem sabe um dia, transformar o seu clube em uma S/A. O projeto era muito bem feito, as pessoas envolvidas eram ligadas ao esporte, com reputação ilibada, assessorados por renomados advogados e jovens financistas de bancos de investimentos, mas infelizmente ele não conseguiu responder meu 1º questionamento: considerando que a formação da 1ª linha do fluxo de caixa é conhecida (os investidores vão aportar trocentos milhões de reais), é possível auditar a principal linha de saída de caixa – a folha de pagamento de salários dos jogadores e comissão técnica, com as respectivas guias de recolhimento de IR, INSS, etc.? Mais precisamente, consigo ler o contracheque (holerite em Sampa) do principal jogador do clube, apelidado carinhosamente pela própria torcida de “chinelinho de ouro” (passava mais tempo de chinelo no departamento médico do clube do que jogando), que dizem, ganha R$ 250 mil/mês? Diante da falta de respostas, passei a falar um pouco sobre governança corporativa (transparência, prestação de contas, etc.); assim a conversa seria proveitosa pelo menos para aquele respeitável dirigente.

Só para contextualizar melhor a nebulosa magia dos grandes números do futebol, vale mencionar um caso recente que envolveu um técnico top-10 (daqueles que já atuaram no exterior e comandaram a seleção brasileira – diz a imprensa invejosa que ganha acima de R$ 700 mil/mês). Ao ter uma dívida executada judicialmente, de aproximadamente R$ 800 mil, a execução não pode ser feita por não existir um único bem em seu nome – o juiz mandou então o oficial de justiça arrestar qualquer objeto dentro do imóvel ocupado pelo vaidoso técnico, com a orientação de deixar somente a geladeira, o fogão e uma TV.... O mais intrigante é que, dias depois, a imprensa noticiou que o mesmo profissional havia emprestado um avião de sua propriedade para uma rápida viagem de jogador do seu time. Gostaria de saber, diante dos fatos, como o clube credita mensalmente o salário do refinado técnico prêt-à-porter? Será que paga em espécie, com a arrecadação da bilheteria do jogo? Ou será que o salário é pago por terceiros, sabe-se lá em qual conta-corrente? Quem sabe existe uma ONGuizinha no esquema? Alguém arrisca um palpite?

Em outra matéria, o jornal Folha de São Paulo de 18/6 usa os termos “roubo” e “agiotagem” para descrever a turbulenta relação entre um importante clube paulista, seu técnico, jogadores e investidores (donos de “passes” de jovens jogadores). Reguladores? Não vale a pena perder tempo falando das entidades que regulam o esporte (FIFA e CBF*), uma vez que as dúvidas sobre a legalidade das atividades das mesmas (notícias de subornos, desvios, etc.) foram resolvidas com a assinatura de angelicais “termos de compromisso” com a justiça da Suíça, tendo como signatários os eternos barões que comandam essas entidades. E nesse caso a regra é clara: sem confissão de culpa, fica o dito pelo não dito. Vale registrar ainda que, em recente matéria publicada na Revista Piauí, o dirigente todo poderoso e pachorrento do nosso futebol classificou a imprensa brasileira como "vagabunda" e disse estar "cagando" para as denúncias com a seguinte afirmação: "Que porra as pessoas têm a ver com as contas da CBF?" Daria um excelente estudo de caso sobre transparência e comunicação empresarial, além de uma ação do Ministério Público (peço desculpas aos visitantes pela reprodução literal de tamanha baixaria).
* pasmem, já se fala na criação de uma agência reguladora para o futebol brasileiro (sugiro a sigla ANAFU).... Dá para imaginar quem seria o superintendente? Deputado boleiro (no sentido republicano: aquele que joga bola e não o que recebe “bola”) é o que não falta para assumir a posição, desde que o expediente não atrapalhe a partidinha de futevôlei em frente à barraca do Pepê, na praia da Barra!

Mais um detalhe importante para o investidor: a definição dos salários nababescos é feita com base nos resultados passados dos profissionais, pela fama conquistada (talvez um pouco pela perspectiva de arrecadação com propaganda). Às vezes nem a condição física do atleta pesa na decisão de contratação. E zero de remuneração baseada em sucesso: jogou bem, mas não ganhou nenhum título – R$ 1,2 MM na conta por mês; jogou mal e foi rebaixado para a série B – R$ 1,2 MM na conta por mês; jogou mal porque foi para a balada com jovens popozudas na noite carioca – R$ 1,2 MM na conta por mês.... Definitivamente tem algo errado nesse modelo de gestão.

Diante dos fatos, investidores que prezam as boas práticas de governança corporativa devem ficar bem longe desse mercado, nem que seja somente para preservar a imagem. Deixemos esse mundo podre para os investidores alligators (os famosos “bocas de jacaré” que engolem tudo/aceitam qualquer relação risco/retorno), os auditores da Receita Federal e as loiras (sejam elas redondas, boas ou devassas).

Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

Um comentário:

  1. Uma informação complementar muito esclarecedora:
    Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo do dia 23/7 revela que “os clubes de aluguel são uma manobra de agentes e fundos de investimento para driblar a regulamentação da Fifa que permite que apenas times de futebol sejam donos dos direitos dos jogadores”.
    Definitivamente o mercado da bola é para investidor disposto a correr todo tipo de risco, principalmente risco de imagem....
    Abraços a todos,
    Renato Chaves

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