Boas-vindas

Caro visitante,
A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

17 de julho de 2011

Investidor aceita levar desaforo na cara em IPOs: será pela escassez de bons ativos?

A análise de algumas ofertas de ações no Brasil nos faz refletir porque investidores qualificados aceitam certas condições que, em condições normais de temperatura e pressão, seriam consideradas verdadeiros atentados às boas práticas de governança corporativa. Será que é o excesso de dinheiro para aplicações no mundo? Culpa dos juros baixos nos papéis de baixo risco dirão os economistas...

No Brasil os casos mais comuns de desaforo são aqueles onde o investidor que adquire ações no IPO aceita pagar indiretamente parte do prêmio de controle para o empreendedor original (o ex-controlador). Como é que é? Isso acontece quando o ex-controlador recebe um tratamento diferenciado da “nova” empresa (pós-IPO); são montanhas de dinheiro, geralmente na forma de remuneração como conselheiro de administração, em padrões completamente fora do normal, sendo comum esse superconselheiro receber até mais do que o CEO, além de continuar como uma eminência parda no dia-a-dia da empresa – ele tem celular, cartão de visita, mesa, secretária, carro blindado com motorista, cartão de crédito corporativo e até um tablet de última geração. Justiça seja feita, o expediente do pseudo-conselheiro é de, no máximo, 3 dias na semana, afinal ex-controlador tem agir como um bon vivant (aparecer no programa do Amauri, jogar uma partidinha de golfe – tênis sacrifica o joelho, velejar em Angra – Guarujá perdeu o status de praia a tempos, temporada em Paris com a esposa nova – no mínimo 25 anos de diferença, etc.). Comentei um caso no Blog do dia 12/6 (o Superconselheiro de R$ 16 milhões/ano + bônus). E outro bom exemplo foi citado no jornal Valor do dia 28/6, onde se descobriu que o ex-controlador de uma empresa debutante no mercado foi agraciado com o pagamento de incríveis R$ 46,5 milhões, a título de “gratificação por serviços prestados como diretor”. Tudo devidamente autorizado pelo conselho de administração e assembleia de acionistas um mês antes do IPO (no bom português: ao apagar das luzes – mas tudo na mais perfeita ordem jurídica). É muita cara de pau; aprova antes para pagar depois, com o dinheiro dos minorotários* que entrou no caixa via IPO (*minoritários + otários). E ainda tem gente que acha que só existem sanguessugas e anões do orçamento em Brasília.

Outra questão que merece reflexão: os executivos/ex-controladores vendem boa parte de suas ações na oferta secundária, conjugada com a oferta primária. Somente o diretor-executivo da empresa da citada reportagem vai embolsar R$ 9,2 milhões no IPO. Detalhe: o executivo assumiu no grupo em março/2010, “adquiriu” as opções por R$ 2,80/ação no final de maio/2010 e irá vendê-las a R$ 13,00 no IPO, pouco mais de um ano depois. Pergunta do Zé Curió (o mineiro desconfiado que vive em Belzonti):

Uai, si o trem é tam bão qui nem vois mi cê falou no conficicau antisdonte, cadiquê cê tá indimbora? (Tradução: espere um pouco, se o negócio é tão bom como você falou no conference call anteontem, porque você está indo embora/vendendo as suas ações?). Concordo com a sabedoria mineira: um pouquinho de ceticismo sempre é saudável.

Resumindo, por considerar o ativo interessante, especialmente aqueles posicionados em setores com poucas ofertas na bolsa, o investidor faz vistas grossas e engole esse tipo de situação.
Como diria o compositor Paulinho Moska: pisa que sou teu calo, pisa que sou teu tapete ... me chama de chão, me chama de chão.

Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

3 comentários:

  1. Prezado Renato.
    Isto apenas mostra o quão regulado é nosso mercado. Assim como aparecem situações como a que citaste, há outras, também, como por exemplo o fato de empresas de auditoria estarem realizando trabalhos vedados por lei, em relação à profissão. Ou seja, estão avaliando bens tangíveis a valor justo, determinando vidas úteis, etc. A CVM, consultada, deu de ombros e disse que o assunto não é com ela (mas foi signatária dos CPC´s). O mercado de ações, como se vê, será maravilhoso em 2011/2012!!!
    Abraço.
    Fernando Bisotto

    ResponderExcluir
  2. Prezado Fernando,
    A situação relatada por você é grave. Não seria o caso de denunciar na assembleia de acionistas e ao IBRACON/Conselho Federal de Contabilidade?
    Abraços,
    Renato Chaves

    ResponderExcluir
  3. Caro Mestre Renato Chaves,
    Obrigado por nos presentear com seu trabalho, com sua lúcida visão dos fatos (dos verdadeiros).
    Absorvo suas palavras com a admiração de quem realmente tem muito a aprender com esse mercado, do qual tanto se valem os espertos. Fica a esperança de que novos companheiros, com a sua lucidez e coragem, possam também levantar a voz, porque está passando a hora de termos uma verdadeira Governança Corporativa. Não a apregoada por oportunistas.
    Fraterno abraço,
    Adolpho

    ResponderExcluir

Caro visitante, apesar da ferramenta de postagem permitir o perfil "comentário anônimo", o ideal é que seja feita a identificação pelo menos com o 1º nome. A postagem não é automática, pois é feita uma avaliação para evitar spams. Agradeço desde já a sua compreensão.