Boas-vindas

Caro visitante,
A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

25 de setembro de 2015

Termos de compromisso para insiders: crime arquivado com uns trocados.

Isso é o que eu chamo de termo de compromisso indigesto. Mais indigesto do que sanduíche de lingüiça com maionese, aquela que ficou no fundo da panela da carrocinha de cachorro quente do parque de diversões da cidadezinha do litoral de Santa Catarina. Pior do que chester com salmonela.

A história se repete: um conselheiro de administração de uma grande empresa (dessas que faturam mais de R$ 30 bilhões/ano), repito CONSELHEIRO DE ADMINISTRAÇÃO, compra ações em volume considerável (R$ 600 mil), 8 dias antes da divulgação do resultado anual. Ou seja, em PERÍODO VEDADO!!!

Com o belo resultado divulgado as ações sobem (lucro líquido 38% maior, EBITDA com crescimento de 35,3% !!!)... E aí, o “nobre” conselheiro vende TODAS essas ações pouco tempo depois, repito TODAS as ações, obtendo um ganho de R$ 165 mil. Nada mal pica pau.
Não estou falando de um estagiário do setor de contabilidade que teve acesso aos números e sorrateiramente comprou ações. Nem do garçom que serve cafezinho e pão de queijo nas reuniões do Conselho (registro: uns dos melhores pães de queijo do mercado). Estou falando de conselheiro de cabelo branco, com anos e anos de experiência na função: já deu tempo de aprender que detentor de informações privilegiadas não pode negociar ações 15 dias antes da divulgação dessas informações.

A alegação do acusado, referendada pela Cia, é risível, digna de registro: o conselheiro só tomou conhecimento do resultado anual 2 dias antes da divulgação. Somos todos otários: o conselheiro fiscalizou e acompanhou a preparação das demonstrações financeiras da Cia. durante 11 meses (em 2013 o Conselho se reuniu 18 vezes !!!), mas não fazia idéia qual seria o resultado do ano fechado. Mais ingênuo que o Felipão. Será que tamanho “desconhecimento” é que o levou a investir vultosa quantia e logo depois, em clara demonstração de “compromisso” com a empresa, vender tudo para embolsar um ganho considerável? Será?

A CVM aceitou essa argumentação fajuta desconsiderando a sua própria orientação, formulada em resposta à carta AMEC-Presi nº 13/2013: conselheiros de administração não precisam aprovar os demonstrativos trimestrais, mas devem apreciá-los de forma diligente sob a premissa de fiscalizar os negócios e a preparação das demonstrações financeiras (disponível em http://www.amecbrasil.org.br/wp-content/uploads/2014/09/Resposta_CVM_a_Carta_Presi_Amec_-13_2013.pdf).
Ou seja, o acompanhamento acontece durante todo o ano, e não somente quando da elaboração da DFP anual. Sofre o mercado, cuja credibilidade vai para a sarjeta.

Por essa e outras que defendo a idéia de “radicalização” das políticas de negociação, com a centralização no Diretor de Relações com o Mercado de todas as negociações que envolvam Administradores. Esse público não pode ter a liberdade de negociar valores mobiliários.

Fico imaginando a frustração da área técnica da CVM, que se esforça para identificar tais falcatruas e depois assiste os meliantes saírem sorridentes pela Rua Sete de Setembro, rumo à Confeitaria Colombo.

Vale a regra, corroborada pelos ilustres advogados de defesa: foi pego pelo xerife? Paga uns trocados e fica tudo bem. Afinal, o xerife não é o Bat Masterson.

O termo de compromisso funciona assim: o acusado, ao saber que o xerife está investigando suas negociações escusas, corre para a Rua Sete de Setembro com um bom advogado a tiracolo para engavetar a apuração, antes mesmo da abertura do processo sancionador. No caso em questão a 1ª proposta do acusado para engavetar o processo foi de R$ 70 mil, a 2ª proposta foi de 2 vezes o ganho embolsado, e por fim foi aumentada para R$ 495 mil (3x o ganho auferido com as “negociatas espúrias”). Conclusão: só paga quem carrega a certeza da culpa.

Atrevo-me a dizer que toda “negociação” de valores a serem pagos por insiders em “quase-processos” ganha ares de imoralidade, uma vez que os investidores que negociaram suas ações em condições diferenciadas dos criminosos nunca serão indenizados: todos os valores recebidos vão para o caixa único de Brasília. Sem falar que a Lei obriga o regulador a avaliar tais propostas considerando a natureza/ gravidade do crime cometido. E no caso de insider trading, a regulação é clara: trata-se de crime, infração grave, sem meias palavras. Talvez os investidores tenham que criar uma associação para reivindicar seus direitos. Seria a AILI – Associação dos Investidores Ludibriados por Insiders. Para piorar, no caso em questão os “negociadores” não consideraram os antecedentes do acusado, já condenado anteriormente.

Mas como a nossa brilhante Câmara dos Deputados não se digna a apreciar o Projeto de Lei 1851/2011, que visa impedir o uso de termo de compromisso para infrações graves, só nos resta aguardar o próximo caso, que não tarda em chegar. Afinal, o crime de insider trading no Brasil é na verdade um “meio crime”, que pode ser engavetado antes da abertura do processo. Matou alguém (no caso a credibilidade do mercado)? Corre pro delegado, ainda com o defunto fresco debaixo do braço, e negocia “um qualquer” que fica tudo certo... Lavou, tá limpinho e cheiroso.

Quem sabe o próximo caso não virá antes do Natal, junto com um suculento chester?

Abraços a todos,

Renato Chaves

19 de setembro de 2015

Quanto os executivos “consomem” do seu EBITDA – empresas com EBITDA acima de R$ 10 bilhões?

Agora chegou a vez do seleto grupo de 4 empresas
com EBITDA acima de R$ 10 bilhões. Como era esperado a média cai muito (0,24%), reflexo do “tamanho” desses EBITDAs.

Somente uma surpresa desagradável, naquela empresa da turma que sonha grande, pois o EBITDA é bem menor do que a da nossa querida mineradora, mas paga bem mais. Deve ser baseado no conceito blábláblá da meritocracia: “geramos um EBITDA menor, mas somos bons de propaganda”.


Remuneração total 2013
EBITDA 2013
relação
Ambev
                        80.240.549
      13.910.400.000
0,58%
Petrobras
                        11.836.434
      62.824.000.000
0,02%
Telefônica Brasil
                        20.694.530
      10.575.600.000
0,20%
Vale
                        64.849.505
      42.386.462.000
0,15%
Media
0,24%

Sempre é bom lembrar que não se trata de uma pesquisa acadêmica, mas somente um singelo alerta para os investidores que “esquecem” de olhar tão importante ferramenta de incentivo, ou por vezes de desalinhamento. E também que são informações publicadas de forma organizada no Anuário de Governança Corporativa das Companhias Abertas 2014 da Revista Capital Aberto.

Abraços a todos,

Renato Chaves

12 de setembro de 2015

Quanto os executivos “consomem” do seu EBITDA – empresas com EBITDA entre R$ 2 e 10 bilhões?

Agora chegou a vez das 19 empresas
com EBITDA entre R$ 2 e 10 bilhões. A média cai bastante (0,71%), reflexo do “tamanho” dessas empresas.

Mas mesmo assim os números trazem surpresas desagradáveis, como comer jiló com aspargos – tem empresa comprometendo mais do triplo da média:


Remuneração total 2013
EBITDA 2013
relação
Braskem
                        28.333.582
         4.796.009.000
0,59%
BRF
                        22.412.129
         3.131.300.000
0,72%
CCR
                        34.295.000
         3.486.096.000
0,98%
Cemig
                        11.415.772
         5.186.000.000
0,22%
Cielo
                        35.849.924
         3.575.300.000
1,00%
CPFL Energia
                        10.203.000
         3.545.873.000
0,29%
CSN
                        29.657.822
         4.213.584.000
0,70%
Embraer
                        51.309.000
         2.239.100.000
2,29%
Fibria
                        36.904.800
         3.573.608.000
1,03%
Gerdau
                        14.358.864
         4.784.000.000
0,30%
JBS
                        10.159.429
         6.194.100.000
0,16%
Marfrig
                        17.642.068
         2.373.777.000
0,74%
Oi
                        14.991.342
         9.565.100.000
0,16%
Pão de Açúcar
                        54.940.651
         3.813.664.000
1,44%
Sabesp
                          3.954.922
         3.371.000.000
0,12%
Souza Cruz
                        16.588.937
         2.635.400.000
0,63%
TIM
                        14.417.066
         5.206.700.000
0,28%
Tractebel
                        17.536.766
         3.043.000.000
0,58%
Ultrapar
                        34.282.400
         2.918.000.000
1,17%
Media
0,71%

Sempre é bom lembrar que não se trata de uma pesquisa acadêmica, mas somente um singelo alerta para os investidores que “esquecem” de olhar tão importante ferramenta de incentivo, ou por vezes de desalinhamento. E também que são informações publicadas de forma organizada no Anuário de Governança Corporativa das Companhias Abertas 2014 da Revista Capital Aberto.

Na próxima semana veremos a tabela de empresas com EBITDA acima de R$ 10 bilhões.

Abraços a todos,

Renato Chaves

5 de setembro de 2015

Quanto os executivos “consomem” do seu EBITDA – empresas com EBITDA até R$ 2 bilhões?

No mês da pátria e de importantes aniversários veremos quadros comparativos com as empresas agrupadas por níveis de EBITDA.

A média do grupo de 54 empresas com EBITDA até R$ 2 bilhões foi de 3,47%, acima da média do grupo inteiro (2,62% com 77 empresas).

Vejam a tabela completa e tirem suas próprias conclusões.... Alguns números deixam até as freiras Carmelitas ruborizadas:


Remuneração total 2013
EBITDA 2013
relação
AES Tietê
                          4.944.490
         1.525.480.000
0,32%
Aliansce
                        15.023.212
            342.648.000
4,38%
ALL
                        28.227.957
         1.830.200.000
1,54%
Anhanguera
                        25.352.751
            299.086.000
8,48%
Arezzo
                          3.807.887
            159.460.000
2,39%
Arteris
                        12.126.527
         1.232.768.000
0,98%
B2W Digital
                          9.552.440
            431.110.000
2,22%
BR Insurance
                        11.018.317
            106.825.000
10,31%
BR Malls
                        57.767.800
         1.698.096.000
3,40%
BR Pharma
                          7.907.000
              17.859.000
44,27%
BR Properties
                        17.918.327
            722.496.000
2,48%
Cesp
                          2.341.057
            852.187.000
0,27%
Cetip
                        42.764.946
            628.900.000
6,80%
Cia. Hering
                        15.583.893
            394.464.000
3,95%
Copasa
                          6.397.549
         1.156.899.000
0,55%
Copel
                        10.594.318
         1.829.396.000
0,58%
Cosan
                        12.691.101
         1.701.900.000
0,75%
Cyrela Realty
                        33.696.170
         1.134.000.000
2,97%
Dasa
                        16.942.949
            443.594.000
3,82%
Ecorodovias
                        15.321.683
         1.195.518.000
1,28%
EDP
                          4.912.601
         1.655.697.000
0,30%
Eletropaulo
                        11.886.735
            729.300.000
1,63%
Equatorial
                          9.552.000
            539.357.000
1,77%
Estácio
                        21.411.291
            320.279.000
6,69%
Eztec F
                        10.929.534
            569.360.000
1,92%
Gol
                        10.866.353
            826.955.000
1,31%
Grendene H
                          6.074.471
            435.881.000
1,39%
Hypermarcas
                        16.857.777
         1.001.500.000
1,68%
Iguatemi
                        12.382.129
            336.040.000
3,68%
Iochpe-Maxion
                        10.306.804
            663.436.000
1,55%
Kroton
                        52.643.996
            666.900.000
7,89%
Light
                        15.181.122
         1.696.833.000
0,89%
 Localiza
                        32.814.845
            916.500.000
3,58%
Lojas Americanas
                        35.579.635
         1.846.000.000
1,93%
Lojas Marisa
                          8.839.657
            370.821.000
2,38%
Lojas Renner
                        18.776.011
            837.132.000
2,24%
Marcopolo
                        17.350.896
            435.114.000
3,99%
M. Dias Branco
                        14.510.962
            673.811.000
2,15%
Mills
                        11.990.423
            403.088.000
2,97%
Minerva
                          5.474.238
            551.400.000
0,99%
MRV
                        13.341.173
            606.153.000
2,20%
Multiplus
                          8.530.042
            285.213.000
2,99%
Natura
                        20.453.500
         1.609.000.000
1,27%
Odontoprev
                          9.082.536
            274.473.000
3,31%
PDG Realty
                        13.360.148
            581.901.000
2,30%
Qualicorp
                        10.000.671
            408.700.000
2,45%
Queiroz Galvão
                          2.550.582
            222.900.000
1,14%
Raia Drogasil
                        16.119.000
            355.636.000
4,53%
Randon
                        12.216.165
            563.893.000
2,17%
Rossi Residencial
                          5.405.267
            182.000.000
2,97%
Taesa
                          7.545.351
         1.322.850.000
0,57%
Totvs
                        25.764.706
            402.078.000
6,41%
Usiminas
                        30.982.422
         1.773.313.000
1,75%
 Weg
                          5.131.037
         1.230.032.000
0,42%
Media
3,47%

E mais uma vez as empresas “sem dono”, de controle difuso, nos “surpreendem”....

Sempre é bom lembrar que não se trata de uma pesquisa acadêmica, mas somente um singelo alerta para os investidores que “esquecem” de olhar tão importante ferramenta de incentivo, ou por vezes de desalinhamento. E também que são informações publicadas de forma organizada no Anuário de Governança Corporativa das Companhias Abertas 2014 da Revista Capital Aberto.
Na próxima semana veremos a tabela de empresas com EBITDA entre R$ 2 e 10 bilhões.

Abraços a todos,

Renato Chaves