Boas-vindas

Caro visitante,
A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

22 de abril de 2017

Boletins mandam recado. Mas sobram ouvidos moucos dos Administradores.


Uma rápida olhada nos mapas de votação à distância nos faz concluir que os investidores definitivamente acordaram para o tema “remuneração de executivos”. Teve até caso de mais votos contrários do que votos favoráveis e abstenções. Certamente as opiniões das empresas estrangeiras de recomendação de voto ISS e Glass Lewis tiveram um peso grande.

Foi assim na VALE, com 404.472.139 votos contrários e 268.817.156 favoráveis (2.768.628 abstenções).

Abre parênteses: a empresa resolveu inovar, adotando um processo de captura de votos questionável, “sugerindo” que os acionistas presentes, logo após a conferência de documentos, registrassem suas “intenções de voto” em uma cédula ANTES de a assembleia começar oficialmente!!! Como assim? Pode isso Arnaldo? A Administração quer saber o resultado da votação antes da assembleia começar? Quer evitar surpresas? Neguei-me a registrar “intenção preliminar de voto” (lá dentro você pode mudar o voto, disse a antipática e perdida atendente), porque entendo que só se declara o voto antes por boletim de voto à distância: é o que diz a lei. Até porque o investidor pode ter uma opinião antes de chegar ao conclave, mas mudar de ideia no desenrolar dos debates... Esse é o “espírito” de uma assembleia. Outro aparte: a direção do conclave restringiu o tempo de uso do microfone por parte dos investidores em 2 minutos por intervenção... Vale lembrar que na AGO do ano passado esse tempo era de 3 minutos; protestei, sugeri 5 minutos, mas fui ignorado. Postura arrogante, típica de quem tem ojeriza ao debate. Resumo da história: foi um tumulto do cão, com um atraso de quase 2 horas para o início do encontro, acionista “banco grande” impedido de entrar no auditório porque ainda estava registrando “intenção de voto” para seus “trocentos” fundos de investimentos desde 10h (a assembleia oficialmente deveria começar às 11h), procurações de estrangeiros desconsideradas por questões burocráticas, como falta de carimbo, um show de horrores.

Fecha parênteses...

Voltemos aos boletins: na Gerdau a rejeição quase empatou com os votos favoráveis, com 15.627.910 votos contrários e 16.025.799 a favor. Na TIM a situação foi parecida: 45.464.472 votos pela rejeição, 59.548.175 aprovando a matéria com 6.722.855 abstenções.

O mistério fica por conta da Embraer, cujo mapa de votação à distância depositado na CVM revela 4 (quatro !!!) votos contrários, nenhum a favor, nenhuma abstenção. Parece que o único boletim que chegou na Cia foi o do “nano investidor” que vos escreve.
Vem aí a última semana de assembleias e continuarei minhas andanças como “nano investidor” pelas empresas que escondem informações sobre remuneração para votar contra as propostas de verba global... Escondeu informação é voto contra, com o devido registro justificando o voto tecnicamente - conflito de interesse dos executivos que decidem não divulgar informações.

Definitivamente os Administradores tem que aprender a realizar assembleia PARA os acionistas, os donos, e não para cumprir burocraticamente os requisitos da lei. Ah, e pode gastar mais um pouquinho no lanchinho, porque economizar com acionista trancado em auditório até 18h a base de café/biscoito maisena/bolacha creme craker parece hipocrisia, especialmente quando esses gastos são confrontados com a remuneração galáctica dos executivos (vide postagem de 15/4). Nem empresa de telefonia em RJ é tão zura... E duvido que o conselho de administração da mineradora seja tratado com tamanha mesquinharia.

Que venham mais assembleias, com a mochila cheia de bananadas e barrinhas de cereal.

Abraços a todos,

Renato Chaves

15 de abril de 2017

Divulgando a remuneração média de diretores de empresas que não divulgam a remuneração média de suas diretorias estatutárias.


Eu sei que você sabe que eu sei que você sabe, mas ....

Em tempos de assembleias de grandes empresas que escondem informações de remuneração mínima, média e máxima de seus executivos, a equipe do Blog da Governança colocou as planilhas pra funcionar e divulga, em 1ª mão, a remuneração média das diretorias estatutárias dessas empresas, velhas conhecidas dos nossos queridos leitores. Aliás, fica o registro de agradecimento pelas 200.000 visualizações da nossa página.


As fontes para essa calculeira toda foram os manuais de assembléia e formulários de referência publicados no site da CVM, item 13.2, onde é possível apurar a remuneração total por órgão e o número de diretores estatutários remunerados. Depois bastou fazer uma continha simples de divisão para termos uma informação que é sonegada aos investidores no item 13.11 desses formulários. Só espero que não me venham com esse blábláblá de ameaça à segurança dos executivos, pois o cálculo foi feito a partir de informações públicas.

Leiam com carinho e tirem suas conclusões. O ideal seria termos informações sobre as remunerações mínimas e máximas, como manda a CVM, para identificarmos as grandes discrepâncias que todo investidor desconfia que existem, mas a média já permite comparar empresas do mesmo setor. Nenhuma surpresa na maior média, mas a 3ª maior média pode deixar um certo Juiz de cabelo em pé... Os valores estão em "R$ mil" e foram apresentados como previsões para o ano de 2017:


Remuneração total
Diretores remunerados
Remuneração média
Alpargatas
                     20.142
                                  4
5.035
B2W
                     32.501
                                10
3.249
Bradesco
                   627.300
                                96
6.533
Bradespar
                       5.060
  1
5.059
Braskem
                     40.622
                                  7
5.802
BTG
                       4.686
                                13
359
CCR
                     76.340
                                11
6.939
Cielo
                     44.409
                                  7
6.343
Cosan
                     15.490
                                  4
3.871
CPFL
                     28.880
                                  7
4.124
CSN
                     73.340
                                  9
8.147
Duratex
                     29.000
                                12
2.415
Embraer
                   33.392
                                  7
4.769
Even
                     19.000
                                  3,2
5.936
Fibria
                     52.723
                                  6
8.786
Gerdau
                          789
                                  5
156
Gol
                     18.970
5
3.793
Iguatemi
                     23.508
                                  5
4.700
Itau Unibanco
                   265.000
                              23,7
11.194
Itausa
                       9.810
                                  3
3.269
Kroton
                     65.357
                                  4
16.338
Lojas Americanas
                     54.886
                                12
4.572
Met Gerdau
                       2.010
                                  5
401
Minerva
                     12.380
                                  6
2.062
Multiplus
                     13.200
                                  4
3.299
Oi
                     45.820
                                  3
15.272
Pão de Açúcar
  88.465
 7,8
11.413
Rumo Log
                       14.800
                                  5
2.959
Santander
                   320.930
                                44
7.292
Suzano
                     34.715
                                  7
4.958
Telefonica/VIVO
                       10.984
                                  3
3.660
TIM
                     27.209
                                  8
3.400
Vale
                   147.419
                                  7
21.058
Via Varejo
                    34.368
                                  7
4.908

Abraços a todos,

Renato Chaves

8 de abril de 2017

Suspensão de OPA: a CVM está sendo burocrática?


Muito rigor? Ou somente a vigilância necessária em um mercado cheio de espertos?

A suspensão da oferta pública da voadora colorida durou somente um dia, mas suscitou acalorados debates na rede de agentes do mercado de capitais. A grande maioria com críticas à postura do regulador: decisão lastimável, desproporcional e equivocada de uma autarquia retrógrada foram alguns comentários publicáveis.

Os argumentos usados pela CVM foram os seguintes:
  • disponibilização de documentos de suporte a apresentações oferecidas a investidores sobre a Oferta (apresentação de roadshow) em site da internet (www.retailroadshow.com), ficando caracterizado o uso irregular de material publicitário não aprovado pela CVM, em infração ao art. 50 da ICVM 400.
  • disponibilização, na citada apresentação de roadshow, de projeções em relação à avaliação de investimentos, notadamente a projeção de valorização do investimento da Companhia em ativos da TAP, que não consta dos documentos da Oferta. Tal fato caracteriza infração ao art. 50, § 2º, da ICVM 400, uma vez que “o material publicitário não poderá conter informações diversas ou inconsistentes com as constantes do Prospecto”.
  • divulgação sucessiva de informações de caráter sigiloso acerca de projeções para a demanda e precificação das ações da Oferta em matérias jornalísticas, como se pode observar, por exemplo, nas matérias divulgadas pelo Estadão/Coluna do Broad, Uol Economia e Brazil Journal, entre os dias 4 e 5/4/2017, em infração ao art. 48, inciso IV, da ICVM 400.
Confesso que torci o nariz para a referida oferta desde o primeiro momento, pois não consigo acreditar que depois de experiências traumáticas com gestores oportunistas alguém possa realizar investimentos sem direito de voto nesse Brasil varonil, com estruturas alavancadas de controle – quem controla de fato coloca pouca grana ou quase nada.

A polêmica advém do fato da oferta afrontar o conceito “uma ação um voto”... Vale a pena ler o pronunciamento da AMEC sobre as chamadas ações superpreferenciais em https://www.amecbrasil.org.br/wp-content/uploads/2016/12/CARTAPRESI_142016_Vedacao_Superpreferenciais.pdf.

Mas parece mesmo que falta atualizar a nossa regulação, tendo em vista que o uso de site para disponibilizar documentos de ofertas é algo usual mundo afora.

Falta de informações podem ser corrigidas rapidamente, mas a divulgação de informações sigilosas merece apuração e punição.

Borduna neles CVM, sem dó nem piedade !!!

Abraços a todos,

Renato Chaves