Boas-vindas

Caro visitante,
A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

30 de janeiro de 2012

Conselho Fiscal: mais firme do que rocha do Vulcão Lazcar.

A matéria do jornal Valor do dia 16/12 (“Conselheiro denuncia acionistas da Vanguarda”) revela que um conselheiro fiscal de uma S/A de capital aberto protocolou na CVM uma denúncia de negociação de ações por administradores em período restrito. Se confirmado, teremos mais um vergonhoso caso de insider trading envolvendo administradores.
Mas o assunto da postagem não é (novamente) insider trading. Não gosto de apostas, cassinos, etc., mas aproveito a deixa, sem entrar no mérito da denúncia por puro desconhecimento de maiores detalhes, para lançar um desafio e reacender o debate sobre a atuação de conselheiros fiscais e membros de comitês de auditoria: se alguém me apresentar um documento público com uma denúncia de membro do comitê de auditoria para algum conselho de administração, assembleia de acionistas ou até mesmo para a CVM, eu pago um almoço no tradicionalíssimo La Trattoria da Rua Fernando Mendes, com direito a um bom vinho e uma foto ao lado do saudoso Drummond “pensador” (mar de Copacabana ao fundo – bem coisa de turista). E de quebra ofereço ao felizardo um ingresso para a estréia do Glorioso na Copa Sulamericana2012 (na especial condição de único representante do futebol carioca nesse importante torneio).
Duvido que alguém consiga. Isso porque os assuntos tratados nos comitês de auditoria nascem e morrem no conselho de administração. Não custa lembrar que é um órgão de assessoramento e, por esta razão, não faz sentido classificá-lo como melhor ou pior do que o conselho fiscal: não “coisas” diferentes, que atendem a públicos diferentes, com objetivos diferentes. Resumo da prosa: todo conselheiro de administração probo deveria exigir o funcionamento do comitê de auditoria e todo investidor prudente deveria solicitar a instalação do conselho fiscal...
A partir de 2012, quando os comitês instalados para permitir a “sarneylização” das auditorias deverão divulgar relatórios anuais resumidos, a transparência deve até melhorar. Mas atrevo-me a afirmar que tais relatórios serão superficiais, restritos a listar os temas tratados ao longo do ano, mas evitando expor fragilidades da gestão. E mais: se algum membro do comitê ousar votar contra o relatório provavelmente teremos um texto do tipo “aprovado por maioria”, tão comum nas atas de assembleias cuidadosamente confeccionadas por habilidosos e criativos advogados, com a arte do discurso vazio – conhecido também como “síntese resumida”.
Por outro lado, exemplos de denúncias formuladas por conselheiros fiscais são inúmeras, sendo que muitas delas originam a abertura de processos sancionadores na CVM (ainda que algumas possam ser classificadas como denúncias vazias por conta de nebulosos interesses). Isso sem falar nos benefícios para a gestão das empresas, quando as sugestões de conselheiros fiscais levam à revisão de procedimentos operacionais. No final das contas, a independência absoluta dos conselheiros fiscais é a única garantia do investidor de que “assuntos delicados” não irão para debaixo do tapete, pois a formulação de denúncias não depende de um amistoso consenso, nascido de uma conversa de amigos, ou mesmo de votações por maioria.
Provocação final: se até síndico de condomínio é fiscalizado, qual a razão da resistência contra conselhos fiscais permanentes nas sociedades anônimas de capital aberto, especialmente por parte de acadêmicos e teóricos da GC? Quem não deve, não teme, já dizia vovó Virgínia.
Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

22 de janeiro de 2012

Fundos de pensão e as boas práticas de governança corporativa: o benefício do contraditório.


Subtítulo: não precisa fazer o que eu digo, mas pelo menos tentar entender o que eu faço.
(Aviso importante: o texto é um pouco extenso – é aconselhável procurar uma posição confortável para a leitura)
Li com muita atenção artigos publicados na conceituada Revista Capital Aberto dos meses de dezembro e janeiro onde o articulista, suportado por números de um estudo acadêmico, dispara a sua artilharia para execrar a atuação dos 3 maiores fundos de pensão brasileiros na gestão de suas carteiras de ações, insinuar que esses investidores tendem a buscar soluções políticas em detrimento da maximização do resultado e ainda acusar o BNDESPar de “extrema passividade” na gestão de suas participações acionárias. Diante de tantas “acusações”, gostaria de compartilhar uma visão prática desse mundo, construída pela atuação como gestor de um desses fundos (2003/2008), participação em conselhos, comitês, assembleias, reuniões prévias e a negociação de inúmeros documentos societários (com direito a inúmeras situações rodriguianas com doses abusivas de azeite de dendê em “A vida como ela é - versão S/A”), aliada a uma boa formação acadêmica. Penso que assim todos terão o benefício do contraditório (artigo 5º, inciso LV da Constituição Federal - aprendi essa com amigos advogados).
Primeiramente, penso que sempre devemos ter cuidado com a leitura de certos números: todos com mais de 40 que leram “O homem que calculava” ou os que tentam analisar reservas atuariais sabem do que estou falando.
Pois bem, a visão apresentada nos referidos artigos parte de uma premissa equivocada, que acredito ter origem na simples falta de vivência do mundo real. Em suma, ao afirmar que “a presença de fundos de pensão como acionistas relevantes (identificada como a participação com mais de 5% do capital votante de empresas ou com pelo menos um conselheiro de administração), é associada a uma pior nota de governança, além de uma menor chance da empresa de ser listada no Novo Mercado”, o ilustre autor desconsidera a realidade brasileira, onde o investidor que possui até mesmo 20%~30% pode ser considerado um minoritário de luxo: daqueles que o DRI atende prontamente o telefonema e, por vezes, até promove uma reuniãozinha com o CEO, fora da APIMEC, ou uma visita às instalações da empresa. Melhoras nos modelos de governança só ocorrerão, ilustres acadêmicos, se os controladores desejarem; assim, a “culpa” por uma pior nota de governança deve ser “creditada” aos controladores dessas empresas, e nunca aos acionistas minoritários, sejam eles fundos de pensão, aquele médico amigo que investe na “Bolsa” ou fundos de private equities. E mesmo diante dessa realidade pouco animadora eu afirmo, sem medo, que são inúmeras as iniciativas para tentar sensibilizar empresas a promoverem melhorias nos seus modelos de governança. Cartas endereçadas diretamente aos presidentes de conselhos de administração (mesma estratégia adotada por grandes fundos de pensão estrangeiros...)? Perdi a conta, muitas com resultados favoráveis. Inclusão na pauta de conselhos de administração de temas relacionados com GC por iniciativa de solitários conselheiros eleitos por fundos, inclusive a criação de comitês de assessoramento? Outros “n” casos. Solicitação de instalação de conselhos fiscais? São inúmeros os casos de sucesso (para desgosto da turma que desfila na ala Comitês de Auditoria da G.R.E.S. Conselheiros Independentes do Guarujá). Além disso, inúmeros registros de votos em assembleias foram, no limite, transformados em denúncias junto ao regulador. Investidor com 5%~15% e força para induzir qualquer tipo de mudança em uma empresa listada, inclusive derrubar CEO? Isso só funciona em empresas com controle difuso, meus caros acadêmicos, e mesmo assim só lá fora, pois aqui tá difícil mudar até a “chapa vitalícia do conselho” nesse tipo de empresa (tema para uma próxima postagem).
Poucos conselheiros independentese comitês de auditoria? Convém conferir a carteira dos fundos para se certificar que são carteiras com predominância de empresas do segmento tradicional e dos níveis 1 e 2, como Vale, Ambev, Gerdau, Bradesco, Itaú, Usiminas, Marcopolo, etc. São empresas com governança ruim? Contrariando os acadêmicos paulistas (ainda bem que a turma da Lagoa dos Ingleses pensa diferente), o mercado continua adorando esses papéis. Vale ressaltar também que, até por falta de espaço nos limites regulatórios, os fundos pouco investiram nas recentes ofertas públicas de empresas que já nasceram no Novo Mercado. Faria sentido vender todas as participações “velhacas” (são grandes blocos...), boas pagadoras de dividendos, e adquirir novatas do Novo Mercado, “demandadoras” de recursos para novos investimentos, com seus carismáticos comitês de auditoria e conselheiros independentes-celebridades? Os fundos de pensão ganhariam nota máxima em estudos acadêmicos, mas atrevo-me a dizer que a estratégia não é recomendada por livros de finanças... Mas posso estar um tantinho desatualizado (parei no mestrado, não sou doutor).
E só quem nunca foi conselheiro (e consequentemente nunca viu franguinho ser degolado em Rio Verde e nem desconfia onde fica a Praça da Aciaria... e não adianta procurar no Google) pode afirmar que comitê de auditoria é melhor do que conselho fiscal para o investidor: são “coisas” diferentes, que atendem a propósitos e públicos diferentes. E desde quando ter conselheiros independentes é garantia de boa governança? Sugiro a leitura da matéria “Independência fajuta”, publicada de novembro/2011 da mesma revista (Srs. leitores: a postagem do Blog do dia 22/10/2010 sobre o assunto é tendenciosa, cuidado).
Mesmo quando esses fundos de pensão participam de um bloco de controle (os fundos de pensão não controlam empresas sozinhos), nossos ilustres estudiosos deveriam lembrar que existem outros acionistas controladores que podem não compartilhar a mesma visão dos investidores institucionais: possuem outro “DNA”, muitas vezes são grupos familiares, de capital fechado, e as estruturas de capital dessas empresas impedem, por exemplo, a migração imediata para o Novo Mercado. Participar de acordos de acionistas com reuniões prévias, visto por alguns “puristas da Faria Lima” como um crime de lesa-pátria, é uma forma legítima de garantir direitos adicionais com uma participação minoritária (vetos em decisões relevantes, venda conjunta na troca de controle, etc., etc., etc.), além de também servir como indutor na disseminação de boas práticas de governança. É assim que o mundo funciona e posso afirmar, de tanto participar de negociações para formalizar/refazer acordos (sempre assessorado por ilustres e competentes advogados – seriam eles co-responsáveis pela má governança nas empresas?), que boa parte do que existe de boa prática de governança nessas empresas deve ser creditado à presença dos fundos de pensão. E nunca é demais lembrar que duas importantes empresas do nosso mercado migraram para o Novo Mercado, pulverizando o controle, com o apoio decisivo dos fundos de pensão... e olha que são raríssimos os casos de migração.
Em passado recente, a ilustre academia paulistana acusou os fundos de pensão de praticar uma governança de conveniência, movida por interesses econômicos de momento (governança reativa ou de ocasião - vide artigo publicado na mesma revista em março/2009)... Praticam sim o exercício de direitos, como no caso da discussão sobre o tag along na ArcelorMittal (briga que também beneficiou os demais acionistas em uma OPA de mais de R$ 2,5 bilhões) e tantos outros exemplos: isso se chama Dever de Diligência. Mas esquecem de mencionar que existe uma constante interação com outros investidores e com a própria CVM na tentativa de regular matérias de interesse de todo o mercado. Alguns exemplos: quórum em assembleia para a eleição de conselheiros fiscais por acionistas ordinaristas, manual de participação em assembleias (antes mesmo da Instrução CVM nº 481), exigência de depósito prévio de procurações para assembleias, etc., etc., etc.
Resumindo, caros professores-doutores, se a governança das empresas estudadas é ruim (aspas triplas: discordo dos critérios adotados para mensurar o que é bom), podem ter a certeza que seria muito pior sem a presença dos fundos de pensão. E cá entre nós, falar mal da atuação do BNDESPar chega a ser cômico: qualquer estagiário recém chegado na Torre Corcovado do Centro Empresarial Mourisco sabe que os primeiros fundos de investimento com foco em governança no Brasil nasceram com o apoio decisivo da turma da Avenida Chilenos anos 90 – Dynamo Cougar, IP-Participações e Fator Sinergia!!!
Como também atuo como professor e conheço bem quanto vale um professor, fica a sugestão a todos os catedráticos de se associarem a um fundo de previdência para garantir o futuro, sem medo. A não ser que resolvam trocar o mundo acadêmico pelo mundo das consultorias, que paga bem melhor.
Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

15 de janeiro de 2012

O crime não compensa.... Mas de quem é a culpa?

Vovó já dizia: quem não deve não teme. Pois é, queridos visitantes, eu bem que tento me controlar para não voltar no assunto Termos de Compromisso (esperei todos retornarem do breve recesso de final de ano), mas o tema vira e mexe surge na imprensa especializada, concorrendo com notícias de mortes em explosões de minas de carvão na República P#x*pto da China.
O tema está quente no inverno norte-americano – vide link para a matéria do NYT do dia 06/1/2012 no final do Blog (S.E.C. Changes Policy on Firms’ Admission of Guilt) – e por aqui também, por meio de uma matéria de página e meia no jornal Valor do dia 22/12 com um alerta para esses verdadeiros trombadinhas do mercado de capitais (os insiders): o cerco vai apertar com a atuação conjunta CVM-Ministério Público. Perfeito o tom da ameaça....
Mas insisto em dizer que, ao aceitar negociar termos de compromisso para infrações graves, especialmente insider trading, a nossa querida, competente e sempre atenta CVM atropela o art. 9º da Deliberação CVM nº 390, que prevê que o Colegiado deverá considerar no seu exame a natureza e a gravidade das infrações objeto do processo, entre outros aspectos. E é a própria autarquia que classifica esse tipo de delito como infração grave, na Instrução nº 491, já tipificado em lei como CRIME. Pode parecer uma discussão etérea, no melhor estilo papo-cabeça de Raul Seixas, mas é para ficar de cabelo em pé quando constatamos, na mesma reportagem, que alguns advogados criminalistas já defendem a tese que só poderia ocorrer a abertura do processo penal depois de esgotados todos os recursos na esfera administrativa, ou seja, depois da decisão do Conselhinho (êta coisa demorada... uns 7 anos na prateleira), ou pior, no dia de São Nunca, caso o processo administrativo seja encerrado, sem confissão de culpa, mediante um bucólico e milionário Termo de Compromisso na Rua Sete de Setembro. Entenderem a preocupação em impedir o uso de Termos de Compromissos para esse tipo de CRIME?
Talvez seja tema para sociólogo ou antropólogo, mas parece que no nosso mercado de capitais continua prevalecendo a cultura eternizada por um comercial de TV dos anos 70, onde um famoso jogador de futebol declarava: gosto de levar vantagem em tudo, certo? E os casos de insiders só aumentam, como nos revela um ilustre advogado em matéria publicada no mesmo jornal (“Mercado anda de lado, mas investigações estão em alta”, do dia 13/12/2011): o volume de “clientes” aumentou 20% em 2011, em relação a 2010. Atrevo-me a afirmar que toda grande operação no Brasil tem vazamento, com negociações irregulares, quase sempre feitas por administradores, alimentados pela sensação de que tudo, no limite, pode ser resolvido por acordo.
Crime é crime e, dizem os detentores de douto saber, quando praticado por quem recebe uma delegação, uma farda ou uma toga para atuar na prevenção/combate ao crime, passa a existir o chamado agravante. É o que acontece com o policial que usa a arma e a sua condição de autoridade para praticar um delito no seu horário de folga – ele é expulso rapidamente da corporação, sem prejuízo do julgamento na esfera criminal. Assim como o policial ou juiz delinquente, o administrador eleito, que carrega a confiança de todos os investidores e usa informação privilegiada traindo o Dever de Lealdade preconizado na Lei 6404, não pode ser considerado um criminoso comum. Muitas vezes é um CRIME que só os administradores podem cometer, pois somente eles detêm a informação privilegiada naquele momento. Daí nasce a bandeira: todo processo aberto para apurar situações de insider trading deveria ser julgado, por conta da gravidade, e nunca jogado para debaixo dos tapetes da Rua 7 de Setembro ou da Rua Peixoto Gomide.
Ano novo, hora de renovar as esperanças para que o Projeto de Lei 1851/2011 do Deputado Federal Chico Alencar seja aprovado, para desespero dos administradores-trombadinhas que gostam de levar vantagem em tudo.
Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

7 de janeiro de 2012

Assembleias via WEB: jabuti não sobe em árvore...

E jabuticaba não nasce em pé de laranjeira. Eis que surge a Lei 12.431, de 24/6/2011, tratando de temas tão diversos como a margem esquerda do Rio Araguari (geógrafos garantem que não fica perto nem de Beraba nem de Berlândia), a fruição do Renuclear, cláusulas “take or pay e ship or pay” para termoelétricas e o futuro reservatório da AHE Cachoeira Caldeirão, além de introduzir a participação e o voto à distância em assembleias. É o que se chama no Congresso de contrabando, onde se coloca tudo o que der em um único saco, Ops, em uma única Lei (será que o deputado-palhaço leu? Será que algum deputado leu? Ou somente os líderes?). “Exposição de motivos”? Não achei. Um ilustre advogado amigo me explicou que isso é coisa rara nos dias de hoje; o mais comum são as leis “coração de mãe”, “caveirão do BOPE”, “trem da alegria”: sempre cabe mais um assunto....
 
Diz o texto, de forma curta e grossa: “Parágrafo único.  Nas companhias abertas, o acionista poderá participar e votar a distância em assembleia geral, nos termos da regulamentação da Comissão de Valores Mobiliários.” (NR)”.
Será que estou interpretando errado ou os acionistas adquiriram um novo direito e poderão exigir que as companhias disponibilizem um sistema que permita a participação e votação à distância? Afinal, a assembleia é um evento promovido pela Cia...
Alguém pensou nos custos? Tradução simultânea de assembleia para atender os investidores estrangeiros? Será um tradutor juramentado ou a tia Elvira do cursinho CCEE serve? E se o tradutor falhar, induzindo o investidor estrangeiro a um erro, quem assume o prejuízo? Que tal contratar um seguro para erros de tradução?
E mais: sendo a ata redigida na forma sumária, o investidor poderá solicitar a transcrição de inteiro teor da assembleia, inclusive com o áudio dos participantes remotos? A empresa arcará com os custos do taquígrafo(lembrem que outro dia o Senador Imortal mandou um taquígrafo excluir uma citação ofensiva ao seu bigode)? A Cia. será responsável pela confiabilidade da conexão (nem no Japão pre-tsunami existiam conexões sem falhas)? Cacofonia, volume do som.... Acho que vai ter minoritário gritando para ser ouvido. Ah, será que “ele” vai poder efetivamente “participar”, como determina a nova legislação, ou o sistema que será oferecido será um sistema meia-boca, que só permitirá votar? Já tem gente importante com essa opinião: votar já significa participar, não será necessário oferecer interação com a assembleia física ...(que tal testar a novidade no dia 30/4 direto do Jalapão-TO?).
Imaginem a seguinte situação: advogados representantes de acionistas minoritários de uma companhia aberta têm a entrada em um reluzente edifício comercial no centro da cidade maravilhosa retardada de uma forma um tanto quanto estranha - o sistema de controle de acesso da recepção estava inoperante e só havia uma recepcionista para fazer o registro manual de um batalhão de advogados - e com isso chegam atrasados em uma importante assembleia. Ao perderem a votação de temas polêmicos os interesses de seus clientes são prejudicados.... Só resta protestar e chorar. Agora imaginem a mesma situação em uma assembleia cibernética, onde a conexão cai (imaginem a qualidade da conexão de uma assembleia de empresa controlada por banqueiro soteropolitano) e o investidor perde uma importante votação. Será possível solicitar uma auditoria de sistemas para investigar eventual culpa pela queda na conexão (lembrando: é direito do acionista participar e votar a distância - a responsabilidade pela conexão deve ser da Cia....)? Se a conexão não voltar antes do término da assembleia e o investidor encaminharcorrendo um voto por fax ou mensagem eletrônica, sem certificação digital, esse voto será válido? Teremos centros de conexão suportados pela Cia. em diferentes cidades do mundo (assembleia virtual com direito a uma viagem de táxi?)? Como organizar a iminente zona? Vice-presidentes de assembleias em cada local de conexão, devidamente remunerados?
A CVM já atuou de forma acachapante para facilitar a vida dos acionistas. Quem não se lembra da época que empresas exigiam o depósito prévio de procurações (até 72 horas !!!) e impediam a participação de acionistas que não cumpriam a absurda exigência, especialmente minoritários dissidentes. Quem tentar fazer isso agora será punido, diante do firme posicionamento do regulador.
Outro golaço da CVM: ao incluir no Formulário de Referência (item 12.2.g) a possibilidade de manutenção de fóruns e páginas na WEB destinados a receber e compartilhar comentários dos acionistas sobre as pautas das assembleias (o chamado chat é uma ferramenta extremamente barata), a CVM também deu um passo decisivo para incentivar o acesso à informação e o amplo debate entre investidores. Pena que nenhuma empresa tenha usado/ousado até hoje.
O que realmente agrega valor às empresas é o debate entre investidores e gestores, como a Dna. Anita na assembleia da Natura de 2011 e as freiras na assembleia da GE de 2000. Adoro parafernálias eletrônicas, mas sou a favor da assembleia presencial, com o CEO e a sua trupe pronta para responder questionamentos de investidores, sem intermediários, presidentes de assembleias presunçosos ou atas elaboradas de véspera em escritório da Faria Lima. O voto eletrônico, desde que o material distribuído tenha qualidade, democratiza a participação, especialmente dos estrangeiros. Transmissão ao vivo? Só se for para acompanhamento dos debates.
Sejamos práticos: para facilitar a vida das empresas e dos investidores, permitindo até uma redução de custos, basta incluir como contrabando na próxima “Lei Coração de Mãe” uma alteração no parágrafo 2º do artigo 124 da Lei das S.A., que permita a realização da assembleia na cidade/sede da Bolsa onde os papéis são listados (leia-se terra da garoa – centro financeiro da América Latina) ou ainda na capital do Estado onde está localizada a sede da Cia – empresa decide o melhor lugar, à luz dos custos e benefícios, e se obriga a manter o mesmo local por 3 anos. E ainda prever que, mesmo que as atas sejam redigidas e publicadas nos jornais na forma sumária, as empresas tenham que publicar atas de inteiro teor na WEB – não tem custo adicional e acaba com a pouca vergonha de escrever pouco para não dizer nada (assunto de uma próxima postagem).
Se a moda de legislar sobre o mercado de capitais juntamente com a fruição do Renuclear pega, daqui a pouco os nobres congressistas vão querer impor quotas nos conselhos de administração.... Calma gente, brincadeirinha: o projeto de lei jáexiste e está sendo discutido na “Taba do Imortal”.... Assunto de uma próxima postagem.
Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

1 de janeiro de 2012

O alerta de um “pequeno-grande” investidor.

Bem interessante o alerta do investidor individual e médico Samuel Emery Lopes (além de cidadão recifense arretado) em sua palestra no seminário promovido pela Apimec-Rio (apresentações disponíveis em http://www.apimecrio.com.br/hotsite/palestrantes.php).

Reconhecendo a evolução da regulação quanto a questões relacionadas com a proteção a acionistas minoritários, ele lança um alerta sobre as remunerações de administradores: em vários exemplos apresentados o montante global pago supera o valor dos dividendos distribuídos em mais de 6 vezes !!! Em que pese o cuidado que devemos ter nesse tipo de análise, pois algumas empresas podem viver uma fase onde a utilização do lucro para novos investimentos pode ser interessante para os acionistas, fica a sugestão para os mestres e doutores façam um estudo comparando as remunerações pagas com os resultados anuais (e não com os dividendos), pelo menos das empresas que compõem o IBrX-50. Feita a ressalva, compartilho o sentimento do investidor Samuel de que essa relação não está justa. Esse meu sentimento é reforçado pelas entrelinhas da declaração entusiasmada do executivo Marcio Christiansen, da fabricante de iates Ferretti (jornal Valor do dia 13/6/2011): "agora os presidentes de empresas compram conosco, não só os donos”(lembrete: são brinquedinhos que podem custar até R$ 15 milhões). Acho até que ele foi modesto na avaliação de seus clientes, pois deveria incluir os CFOs, COOs, CTOs e outros COs da vida nessa lista de novos desbravadores dos 7 mares, do Saco do Mamanguá e da Ilha das Palmeiras, com direito a participação no famoso evento na Ilha de Comandatuba e ser entrevistado pelo Amaury Jr. Vale também transcrever parte do artigo de Paul Krugman, “Nós somos os 99,9%”, publicado na Folha de SP do dia 26/11: “Salários de executivos, que subiram vertiginosamente, são definidos por conselhos diretores nomeados pelas próprias pessoas cujos ganhos eles determinam(ele deve estar falando de empresas com controle difuso). CEOs debaixo desempenho recebem salários generosos. E executivos fracassados, muitas vezes, ganham milhões quando deixam empresas”.

Boa provocação para um início de ano.

Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves