Boas-vindas

Caro visitante,
A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

27 de novembro de 2011

PREVI: as bandeiras do maior fundo de pensão da América Latina

Em recente seminário realizado na sede da Apimec-Rio, com o tema “Ativismo e Governança Corporativa”, a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (PREVI), detentora de participações acionárias com representação em conselhos em 67 empresas (valor aproximado de R$ 90 bilhões), apresentou um conjunto de 8 bandeiras/melhores práticas que procura defender em seus investimentos, adicionalmente aos tópicos apresentados no Código de Governança da entidade (disponível em http://www.previ.com.br/portal/page?_pageid=57,1013147&_dad=portal&_schema=PORTAL).

Compartilho com os leitores do Blog esse conjunto de bandeiras por entender que se trata de uma grande contribuição para o mercado; os investidores institucionais, especialmente a minha querida Previ (nota: fui diretor e continuo filiado ao fundo), já deram provas irrefutáveis de que buscam incessantemente influenciar as empresas a adotarem as melhores práticas de GC, mesmo quando não possuem participação majoritária para “impor” mudanças (e infelizmente não são todos os parceiros investidores que têm a GC no DNA....). Por não atuarem com propósitos especulativos de curto prazo, os investidores institucionais adotam uma postura que chamo de “ativismo participativo”, onde a interação contínua com a Administração das companhias faz com que boas experiências sejam replicadas, com geração de valor para todos. Nunca é demais lembrar que importantes empresas listadas no mercado tradicional migraram para o Novo Mercado com o apoio de investidores institucionais.

Sem mais rodeios, os principais aspectos das 8 bandeiras são:
·         Disclosure: incentivo à divulgação oportuna, clara e precisa das informações financeiras e não-financeiras, a fim de permitir que os interessados acompanhem e compreendam os fundamentos econômicos e o desempenho da companhia. O Formulário de Referência deve garantir aos acionistas e investidores um conjunto completo de informações atualizadas para uma tomada de decisão refletida e fundamentada;
·         Dividendos: defende que as participadas elaborem uma Política de Dividendos transparente capaz de remunerar satisfatoriamente seus acionistas, sem comprometer o seu fluxo de caixa futuro e sua capacidade de investimento/crescimento, evitando, porém, a retenção desnecessária de recursos na empresa;
·         Conselho Fiscal Permanente: incentivo à adoção do Conselho Fiscal em caráter permanente (nos Estatutos Sociais), para conferir maior transparência na relação entre companhia e investidores, bem como facilitar o processo de fiscalização da administração da companhia pelos acionistas minoritários;
·         Sustentabilidade: recomendação pela adoção de práticas capazes de oferecer retornos econômicos, sociais e ambientais compatíveis com as expectativas de seus diferentes públicos de interesse e incentivo à divulgação anual dessas práticas, bem como de indicadores de desempenho relativos à responsabilidade socioambiental corporativa, através da publicação de um Relatório de Sustentabilidade com base no modelo do GRI (Global Reporting Initiative);
·         Política de Remuneração de Administradores: os programas de remuneração de longo prazo devem ser estimulados como um dos instrumentos de retenção dos executivos. Recomenda a divulgação da política e o valor da remuneração dos Conselhos e da Diretoria Executiva, incluindo a remuneração variável e os planos de opções de compra de ações. Dada a relevância do tema, recomenda ainda a criação de um comitê de assessoramento ao conselho de administração;
·         Comitês: recomenda que todas as empresas tenham Comitês para auxiliar o Conselho de Administração no desempenho de seus deveres e responsabilidades. Exemplos de temas: Remuneração, Governança Corporativa, Finanças e Estratégia Corporativa;
·         Assembleias de Acionistas: recomendação de elaboração de um Manual de Assembleias que contemple: divulgação, por meio de site institucional, com antecedência mínima de 30 dias da data de realização da assembleia, a agenda e documentação adequadas para que os acionistas possam posicionar-se a respeito das decisões a serem tomadas; procedimentos necessários para voto e representação de acionistas nas assembleias; e modelo específico de procuração, inclusive a implementação de procuração eletrônica (observação: a Previ foi pioneira ao lançar em 2008 um Modelo de Manual para Participação em Assembleias);
·         Controles Internos: defesada adoção de Controles Internos nos moldes da Sarbanes-Oxley, independente das participadas possuírem papéis negociados na Bolsa de Nova Iorque.

Vale frisar que, além da Previ (representada pela sua gerente Marta Xavier), o Seminário contou com a participação de John Wilcox, um especialista em governança corporativa reconhecido mundialmente, e de Samuel Emery Lopes, um cidadão recifense “arretado” e investidor individual autodidata com fortes opiniões sobre o tema. Oportunamente comentarei alguns aspectos apresentados pelos outros dois palestrantes. Mas quem quiser conferir todas as apresentações é só visitar a página da Apimec-Rio (http://www.apimecrio.com.br/hotsite/palestrantes.php).

Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

19 de novembro de 2011

Instrução CVM 509 – vai começar a corrida para a criação de comitês de auditoria estatutários?


Está na rua a Instrução CVM que altera a regra do rodízio de firmas de auditoria (copiada no final da postagem).
Primeira constatação: os agentes de mercado foram tímidos na participação – menos de duas dezenas, se excluirmos as firmas de auditoria. E somente um grande investidor institucional (a Previ).
E mais: as propostas mais “arrojadas”, que objetivavam dar maior “musculatura” para o Comitê via regulação, como a vinculação das vagas de membros independentes para os conselheiros eleitos por acionistas minoritários e a necessidade de aprovação da totalidade dos membros do CAE para a manutenção dos auditores em avaliações anuais, foram rejeitadas. Eram inúmeras propostas para dar força para os futuros comitês, sem depender da negociação de regras em regimentos internos. Uma pena (para conferir o Relatório da Audiência Pública é só visitar o site da autarquia www.cvm.gov.br no link "Comunicados ao mercado" - 16/11/2011).
Agora é esperar para ver se as empresas irão correr para alterar estatutos e selecionar no mercado membros “independentes” para os seus CAEs...
Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

INSTRUÇÃO CVM No 509, DE 16 DE NOVEMBRO DE 2011 - Acrescenta artigos à Instrução CVM nº 308, de 14 de maio de 1999, e altera artigos e anexo da Instrução CVM nº 480, de 7 de dezembro de 2009.
A PRESIDENTE DA COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS - CVM torna público que o Colegiado, em reunião realizada em 01de novembrode 2011, com fundamento nos arts. 1º, inciso VII, 21, 22 e 26 da Lei nº 6.385, de 7 de dezembro de 1976, e no art. 177, § 3o, da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, APROVOU a seguinte Instrução:
Art. 1ºA Instrução nº 308, de 14 de maio de 1999, passa a vigorar acrescida dos arts. 31-A, 31-B, 31-C, 31-D, 31-E e 31-F, com as seguintes redações:

“Art. 31-AO prazo estabelecido no art. 31 desta Instrução é de até 10 (dez) anos consecutivos caso:

I – a companhia auditada possua Comitê de Auditoria Estatutário - CAE em funcionamento permanente; e

II o auditor seja pessoa jurídica.
§ 1ºPara a utilização da prerrogativa prevista no caput, o CAE deverá estar instalado no exercício social anterior à contratação do auditor independente.
§ 2ºAdotada a prerrogativa prevista no caput, o auditor independente deve proceder à rotação do responsável técnico, diretor, gerente e de qualquer outro integrante da equipe de auditoria com função de gerência, em período não superior a 5 (cinco) anos consecutivos, com intervalo mínimo de 3 (três) anos para seu retorno.” (NR)
“Art. 31-BO CAE deve:
I – ser previsto no estatuto da companhia;
II –ser órgão de assessoramento vinculado diretamente ao conselho de administração;
III – reunir-se sempre que necessário, mas no mínimo bimestralmente, de forma que as informações contábeis sejam sempre apreciadas antes de sua divulgação;
IV – possuir regimento interno próprio, aprovado pelo conselho de administração, que preveja detalhadamente suas funções, bem como seus procedimentos operacionais;
V – possuir coordenador, cujas atividades devem estar definidas no regimento interno;
VI – possuir meios para receber denúncias, inclusive sigilosas, internas e externas à companhia, em matérias relacionadas ao escopo de suas atividades; e
VII – possuir autonomia operacional e dotação orçamentária, anual ou por projeto, dentro de limites aprovados pelo conselho de administração para conduzir ou determinar a realização de consultas, avaliações e investigações dentro do escopo de suas atividades, inclusive com a contratação e utilização de especialistas externos independentes.
§ 1ºAs reuniões do CAE devem ser registradas em atas.
§ 2ºO coordenador do CAE, acompanhado de outros membros do CAE quando necessário ou conveniente, deve:
I – reunir-se com o conselho de administração, no mínimo, trimestralmente; e
II – comparecer à assembleia geral ordinária da companhia.”(NR)
“Art. 31-CO CAE deve ser composto por, no mínimo, 3 (três) membros, indicados pelo conselho de administração, que exercerão seus cargos por, no máximo, 10 (dez) anos, sendo:
I – ao menos, 1 (um) membro do conselho de administração da companhia, que não participe da diretoria; e
II – a maioria de membros independentes.
§ 1ºÉ vedada a participação de diretores da companhia, suas controladas, controladora, coligadas ou sociedades em controle comum, diretas ou indiretas, no CAE.
§ 2ºPara que se cumpra o requisito de independência de que trata o inciso II do caput, o membro do CAE:
I – não pode ser, ou ter sido, nos últimos 5 (cinco) anos:
a) diretor ou empregado da companhia, sua controladora, controlada, coligada ou sociedade em controle comum, diretas ou indiretas; ou
b) responsável técnico da equipe envolvida nos trabalhos de auditoria da instituição; e
II – não pode ser cônjuge, parente em linha reta ou linha colateral, até o terceiro grau, e por afinidade, até o segundo grau, das pessoas referidas no inciso I.
§ 3ºOs membros do CAE devem atender aos requisitos previstos no art. 147 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976.
§ 4ºTendo exercido mandato por qualquer período, os membros do CAE só poderão voltar a integrar tal órgão, na mesma companhia, após decorridos, no mínimo, 3 (três) anos do final do mandato.
§ 5ºAo menos 1 (um) dos membros do CAE deve ter reconhecida experiência em assuntos de contabilidade societária.
§ 6ºPara que se cumpra o requisito de reconhecida experiência em assuntos de contabilidade societária, previsto no § 5º do caput, o membro do CAE deve possuir:
I – conhecimento dos princípios contábeis geralmente aceitos e das demonstrações financeiras;
II – habilidade para avaliar a aplicação desses princípios em relação às principais estimativas contábeis;
III – experiência preparando, auditando, analisando ou avaliando demonstrações financeiras que possuam nível de abrangência e complexidade comparáveis aos da companhia;
IV – formação educacional compatível com os conhecimentos de contabilidade societária necessários às atividades do CAE; e
V – conhecimento de controles internos e procedimentos de contabilidade societária.
§ 7ºO atendimento aos requisitos previstos no § 6º do caput devem ser comprovados por meio de documentação mantida na sede da companhia, à disposição da CVM, pelo prazo de 5 (cinco) anos contados a partir do último dia de mandato do membro do CAE.
§ 8ºOs membros do CAE devem manter postura imparcial e cética no desempenho de suas atividades e, sobretudo, em relação às estimativas presentes nas demonstrações financeiras e à gestão da companhia.
§ 9º A substituição de membro do CAE dever ser comunicada à CVM em até 10 dias contados da sua substituição.” (NR)
“Art. 31-DCompete ao CAE:
I – opinar sobre a contratação e destituição do auditor independente para a elaboração de auditoria externa independente ou para qualquer outro serviço;
II – supervisionar as atividades:
a) dos auditoresindependentes, a fim de avaliar:
1. a sua independência;
2. a qualidade dos serviços prestados; e
3. a adequação dos serviços prestados às necessidades da companhia;
b) da área de controles internos da companhia;
c) da área de auditoria interna da companhia; e
d) da área de elaboração das demonstrações financeiras da companhia;
III – monitorar a qualidade e integridade:
a) dos mecanismos de controles internos;
b) das informações trimestrais, demonstrações intermediárias e demonstrações financeiras da companhia; e
c) das informações e medições divulgadas com base em dados contábeis ajustados e em dados não contábeis que acrescentem elementos não previstos na estrutura dos relatórios usuais das demonstrações financeiras;
IV – avaliar e monitorar as exposições de risco da companhia, podendo inclusive requerer informações detalhadas de políticas e procedimentos relacionados com:
a) a remuneração da administração;
b) a utilização de ativos da companhia; e
c) as despesas incorridas em nome da companhia;
V – avaliar e monitorar, juntamente com a administração e a área de auditoria interna, a adequação das transações com partes relacionadas realizadas pela companhia e suas respectivas evidenciações; e
VI – elaborar relatório anual resumido, a ser apresentado juntamente com as demonstrações financeiras, contendo a descrição de:
a) suas atividades, os resultados e conclusões alcançados e as recomendações feitas; e
b) quaisquer situações nas quais exista divergência significativa entre a administração da companhia, os auditores independentes e o CAE em relação às demonstrações financeiras da companhia.”(NR)
“Art. 31-EA companhia deve manter em sua sede social e à disposição da CVM, pelo prazo de 5 (cinco) anos, relatório anual circunstanciado preparado pelo CAE, contendo a descrição de:
a) suas atividades, os resultados e conclusões alcançados e as recomendações feitas; e
b) quaisquer situações nas quais exista divergência significativa entre a administração da companhia, os auditores independentes e o CAE em relação às demonstrações financeiras da companhia.”(NR)
“Art. 31-FOs auditores independentes devem atender às demandas do CAE em todas as matérias de sua competência.”(NR)
Art. 2ºO § 1º do art. 25 da Instrução CVM nº 480, de 7 de dezembro de 2009, passa a vigorar acrescido do inciso VII:
“Art. 25. ............................................................
§ 1º ....................................................................
V – declaração dos diretores de que reviram, discutiram e concordam com as opiniões expressas no parecer dos auditores independentes, informando as razões, em caso de discordância;
VI – declaração dos diretores de que reviram, discutiram e concordam com as demonstrações financeiras; e

VII – relatório anual resumido do comitê de auditoria, se houver.
...........................................................................”(NR)
Art. 3ºO art. 30 da Instrução CVM nº 480, de 2009, passa a vigorar acrescido dos incisos XXIX a XXXI:
Art. 30.............................................................
XXVII – sentença denegatória ou concessiva do pedido de falência, no mesmo dia de sua ciência pelo emissor;
XXVIII – decretação de intervenção ou liquidação, com a indicação do interventor ou liquidante nomeado, no mesmo dia de sua ciência pelo emissor;
XXIX comunicação sobre a instalação de comitê de auditoria estatutário, da qual deve constar, no mínimo, o nome e o currículo de seus membros, em até 7 (sete) dias úteis contados de sua instalação;
XXX – comunicação sobre mudança na composição ou dissolução do comitê de auditoria estatutário, em até 7 (sete) dias úteis contados da data do evento; e
XXXI regimento interno do comitê de auditoria estatutário e eventuais alterações, em até 7 (sete) dias úteis contados de sua instalação ou da aprovação das alterações pelo conselho de administração.
............................................................................”(NR)
Art. 4ºO art. 31 da Instrução CVM nº 480, de 2009, passa a vigorar acrescido dos incisos XX a XXII:
Art. 31.............................................................
XVIII – sentença denegatória ou concessiva do pedido de falência, no mesmo dia de sua ciência pelo emissor;
XIX – decretação de intervenção ou liquidação, com a indicação do interventor ou liquidante nomeado, no mesmo dia de sua ciência pelo emissor;
XX comunicação sobre a instalação de comitê de auditoria estatutário, da qual deve constar, no mínimo, o nome e o currículo de seus membros, em até 7 (sete) dias úteis contados de sua instalação;
XXI - comunicação sobre mudança na composição ou dissolução do comitê de auditoria estatutário, em até 7 (sete) dias úteis contados da data do evento; e
XXII regimento interno do comitê de auditoria estatutário e eventuais alterações, em até 7 (sete) dias úteis contados de sua instalação ou da aprovação das alterações pelo conselho de administração.
..........................................................................”(NR)
Art. 5ºO item 12.8 do Anexo 24 da Instrução CVM nº 480, de 2009, passa a vigorar com a seguinte redação:
12.8.Em relação a cada um dos administradores, membros do conselho fiscal e membros do comitê de auditoria estatutário, fornecer:
.........................................................................”(NR)
Art. 6ºFica permitida a utilização da prerrogativa prevista no caput do artigo 31-A da Instrução nº 308, de 1999, conforme redação dada por esta Instrução, para a companhia que, em 31 de dezembro de 2011, possua comitê de auditoria instalado e em funcionamento, que cumpra com os requisitos desta Instrução, desde que promova a alteração em seu estatuto social para prever a existência do comitê de auditoria em até 120 (cento e vinte) dias contados a partir de 1º de janeiro de 2012.
Art. 7ºEsta Instrução entra em vigor na data de sua publicação.
Original assinado por MARIA HELENA DOS SANTOS FERNANDES DE SANTANA - Presidente

12 de novembro de 2011

Os playboys bebados e seus carrões, os executivos aloprados e a falta de informações ... e as auditorias.

Cenas de acidentes no trânsito envolvendo carrões importados e jovens irresponsáveis, quase sempre alcoolizados, tem revoltado a opinião pública. E boa parte dessa indignação reside no fato dos autores serem liberados quase que imediatamente, mediante o pagamento de alguns trocados de fiança; para o cidadão comum, que não tem dinheiro para comprar um Camaro ou um Porsche ou para pagar uma fiança de R$ 10, 30 ou 100 mil, fica a sensação de impunidade, principalmente quando o acidente resulta na morte de inocentes.

Enquanto isso, no nosso querido mercado de capitais, presenciamos a quebra de empresas queridinhas do pregão por conta da atitude aloprada de alguns administradores. A análise detalhada dos processos administrativos sancionadores revela que as operações realizadas não ofereciam uma proteção das companhias contra a variação cambial, como esclarece a seguinte passagem: “na verdade, a proteção proporcionada pela operação "2x1" se limitava a uma banda cambial entre 1,60 e 1,94 Real/USD e assim mesmo com limitação de ganhos. Dessa forma, eventuais perdas cambiais com os ativos e receitas da empresa Y estavam parcialmente protegidas, enquanto que a "proteção" se tornava prejuízo em dobro e sem limitação cada vez que o câmbio extrapolasse a banda contratual”.

Ainda que se possa alegar que os administradores envolvidos somente "erraram" ao optarem por um contrato financeiro que trazia mais riscos do que proteção ou ainda por não saberem mensurar a dimensão de eventuais perdas, fica difícil aceitar a ocultação de informação para os investidores "comuns".

Ainda que todos os frequentadores bem informados do Figueira Rubayat e do D'Amici soubessem que pelo menos duas importantes empresas brasileiras estavam quebradas por conta de operações do tipo target forward, o fato é que o investidor "Zé Ruela", frequentador do simpático Café Stock (pertinho da Bovespa) ou do Bovinu's Fast Grill (dizem as más línguas que ainda hoje é o preferido da turma do olho grande que perdeu dinheiro na Boi Magro), ao ler os ITRs e respectivos relatórios das auditorias externas, não desconfiou que os seus investimentos estavam virando pó.

Tal "falha" foi muito bem qualificada pelo Parecer do Comitê de Termo de Compromisso de um dos processos sancionadores abertos. Diz o relatório: “Assim, ainda que a companhia tenha mencionado que suas operações estavam expostas a riscos relacionados às variações cambiais e que utilizava instrumentos financeiros derivativos como os contratos futuros de moeda para mitigar os impactos, segundo a SNC, restou evidenciado que as notas explicativas tanto das demonstrações financeiras de 31.12.07 quanto das informações trimestrais de 30.06.08 não atenderam ao previsto na Instrução CVM nº 235/95, uma vez que não divulgaram os riscos que as operações de targetforward expunham a companhia”.

O mesmo Relatório recomenda a rejeição da 1ª proposta de Termo de Compromisso da big4 por entender “que há que se levar em consideração o contexto em que se verificaram as infrações imputadas aos proponentes e a especial gravidade das condutas consideradas ilícitas, além do caráter pedagógico-norteador para os participantes do mercado de valores mobiliários, em especial dos prestadores de serviços de auditoria independente a companhias abertas, cuja atuação, resta notório, é de extrema importância para o funcionamento eficiente e regular do mercado de valores mobiliários” e que “da mesma forma não se pode ignorar, quando da avaliação da conveniência e oportunidade na celebração do compromisso proposto, o histórico de ocorrências da empresa de auditoria ora proponente”. Um aspecto importante: a proposta apresentada previa o pagamento de R$ 350 mil (o preço de um Porsche ou de um modelo novo da BMW).

Pois bem, em que pese a citada advertência uma nova proposta, dessa vez de R$ 1,5 milhão, foi aceita e o processo foi devidamente engavetado, sem que a acusada tenha reconhecido culpa. Imagino que deve até ter rolado um bônus para o hábil negociador/advogado da big4 que conseguiu resolver um problemão desses com apenas R$ 1,5 milhão.

Ainda que a sensação de impunidade possa ser semelhante, existe uma sutil diferença entre as duas situações, pois enquanto o playboy paga a fiança, mas continua respondendo o processo, com risco de condenação (a Lei 9099/95 permite somente que as infrações de menor poder ofensivo sejam “negociadas” nos Juizados Especiais Criminais), os agentes que contribuíram para a destruição de empresas de sucesso ao sonegarem informações nos ITRs da vida compram uma carta de banco imobiliário, do tipo "saia livre da cadeia", como foi muito bem caracterizada a situação pelo juiz federal norte-americano de 1ª Instância Jed Radkoff, ao recriminar a SEC pela prática de encerrar processos com acordo, sem a confissão de culpa, que “causa um estado de confusão e hipocrisia”, que é um “desserviço ao público” nunca deixar claro se as acusações são verdadeiras.

E os investidores? Bem, como os tolinhos não tem condições financeiras para brigar na justiça por uma reparação e o dinheiro arrecadado nos termos de compromisso vai para o Grande Cofre, só resta continuar lendo relatórios que dizem pouco, ou quase nada, e sonhando com a compra de uma Ferrari.

E como não perdi dinheiro com as referidas quebras (diretamente porque os recursos garantidores do meus fundos de previdência certamente sofreram um pequeno baque), tratei de comprar a minha Ferrari, modelo 250 LM (vencedora das 24 Horas de Le Mans de 1965), por módicos R$ 39,90 na banca de jornais da Rua Rodolfo Dantas, uma pechincha. Mas quem quiser comprar uma igual é bom correr porque a procura pela coleção de miniaturas está grande.

Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

6 de novembro de 2011

Quando o conselho fica “trancado” na luxuosa sala do 25º andar....

Os visitantes que responderam a enquete do mês de outubro reforçaram o sentimento de que a boa parte dos conselhos não interage com as respectivas organizações (39% nunca e 25% somente quando convidado). Quando muito conhecem os principais gestores (nem todos – o CFO e o controller certamente), além da simpática secretária que atende o conselho e a copeira que serve saborosos quitutes (se a reunião acontece em Salvador temos a garantia de ganho de muitas calorias). Ia esquecendo: por vezes a empresa coloca um carro à disposição do conselheiro, especialmente quando a reunião acontece fora da “base”. Uma ótima oportunidade para conhecer um pouco mais da organização, já que todo motorista adora conversar... Resumindo: o conselheiro entra pela garagem privativa, sobe pelo elevador privativo e fica trancado em uma sala privativa.... Fica parecendo cárcere privado.
Mas a tática de “isolamento forçado” também vale para os investidores. Em um passado não muito distante fui visitar a sede de uma importante indústria nacional, situada em uma cidade com pouco mais de 100 mil habitantes. Primeira surpresa: todos os diretores desfilavam em automóveis Mercedes Benz 0 Km (não anotei o modelo – fiquei anestesiado), verdadeiras “flechas de prata”, como manda o manual de boas práticas da marca alemã. Era uma frota, todos iguais para não gerar ciúmes....(dizem que ciúme entre homens é pior que ciúme de mulher). Bem que tentei convencer o nosso anfitrião a realizar a visita nos simpáticos carrinhos elétricos que estavam parados na porta da fábrica, mas não teve jeito: lá fomos nós, a 20 km/h em uma genuína Mercedes Benz prateada, uma cena patética. Afinal, naquela cidade a 1ª acelerada do bólido alemão já faria o carrão ultrapassar os limites do Estado.... Achei toda aquela pompa uma verdadeira afronta para a pequena cidade, até porque dispensei o convite para almoçar no luxuoso restaurante da cidade vizinha (um pouquinho maior - 500 mil hab.) e convenci o nosso pomposo diretor a almoçar no clube dos funcionários: um meio termo entre a cascata de camarões e o bandejão dos operários.
Caro conselheiro, você já participou de alguma olimpíada corporativa? Não? Pois não sabe o que está perdendo. Já participei, quando era presidente de certo conselho de administração, e não me arrependo. Exceto pelo jovem “sem juízo” que teve a ousadia de me vencer por 2 sets a 1 em uma disputadíssima partida de tênis(tenho testemunhas), tive a oportunidade de ouvir críticas e sugestões diretas, sem intermediários, potencializadas por gelados chopinhos. A sorte deles é que não levei o meu glorioso time de futebol de botão, pois seria uma barbada para o ex-campeão inconteste de toda a região da Freguesia da Glória.
Outro dia fui convidado a visitar uma indústria na região Centro-Oeste que passava por uma interessante transformação: mesmo não sendo uma empresa listada, ela estava criando um conselho de administração, com um conselheiro independente, para iniciar um processo de “profissionalização” da gestão. Estava lá para conhecer os sócios e, principalmente, o negócio. O tempo restrito para a visita, entre 10 e 16:30h, serviu como um ótimo argumento para convencer os anfitriões a trocar o almoço “cascata de camarão” pelo bandejão da fábrica. O tour pela empresa, comandando por uma simpática funcionária que conhecia bem toda operação mesmo sem ocupar um cargo gerencial, foi bem proveitosa, pois tive a oportunidade de conhecer detalhes sem qualquer tipo de filtro. A moça falava muito...
Pois bem, interação não é sinônimo de inspeção/fiscalização, e sim um momento perceber, sem filtros, como nasce e se desenvolve a cultura da organização. Não é à toa que, sentado na arquibancada para assistir a final do disputadíssimo torneio de futebol da tal olimpíada, ouvi a seguinte “pérola” de um divertido torcedor ao saber da minha “origem”: “Então o amigo é do conselho? Pois eu achava que o conselho era uma espécie de “entidade”, invisível, daquelas coisas de Chico Xavier.... É bom saber que tem gente de carne e osso pensando a estratégia da nossa organização”.
Pernas para que te quero: que tal programar uma atividade de campo, como participar de uma equipe de instalação na casa de algum cliente ou ficar uma manhã inteira “acampado“ em uma posição de call center como ouvinte?
Abraços a todos e uma boa semana,
Renato Chaves