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A proposta do Blog da Governança é estimular o livre debate em torno de tópicos atuais relacionados com o tema Governança Corporativa.
Fiel ao compromisso com a transparência, o espaço pretende também funcionar como um fórum de estímulo ao ativismo societário (ou ativismo participativo), com foco na regulação para as empresas de capital aberto.

25 de junho de 2011

Enganando conselheiros, investidores e a sociedade: “gerenciamento de resultado” pode até matar um desavisado....


Os cariocas continuam reféns do medo. Não estou falando da violência, comum em todas as grandes cidades, e nem mudei o tema do Blog para escrever sobre o cotidiano da cidade maravilhosa. Também não gosto de falar de casos específicos de empresas, mas agora é diferente: é que quase fui vítima do “gerenciamento de resultado” de uma S/A. Literalmente, pois no último sábado, ao caminhar na Av. N. Sra. de Copacabana me deparei com uma esquina interditada pelo Corpo de Bombeiros: mais um bueiro da Light havia voado pelos ares (veja a foto que tirei na hora). Fui salvo pelo destino dirão alguns – resolvi ir de metrô e voltar a pé da entrega dos kits da corrida de domingo que acontecia em um hotel no Posto 6... Mas o fato é que, em algum momento do passado – não estou questionando a gestão atual da Cia. até porque muito admiro o trabalho do Jerson Kelman – a empresa negligenciou a manutenção dos equipamentos situados no subsolo das ruas cariocas. O “gerenciamento de resultado” em empresas de capital aberto por razões não tão nobres (ou longe das razões republicanas no linguajar de Brasília) é algo já evidenciado em estudos acadêmicos em nosso país. Mas qual seria a motivação? Segundo Antonio Lopo Martinez, em sua tese apresentada na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP em 2002 com o título “Gerenciamento" dos resultados contábeis: estudo empírico das companhias abertas brasileiras (http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12136/tde-14052002-110538/pt-br.php), haveria o interesse de administradores em: “a) evitar reportar perdas; b) sustentar o desempenho recente e c) reduzir a variabilidade dos resultados”. Já a tese de Adriana Cristina Garcia Trapp (A relação do conselho fiscal como componente de controle no gerenciamento de resultados contábeis), apresentada na mesma instituição em 2009 (disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12136/tde-08072009-160920/es.php), revela que “o gerenciamento de resultados surge nas organizações no momento em que os gestores responsáveis pelas informações contábeis fazem uso de julgamento para alterar os relatórios financeiros externos, com o intuito de intervenção proposital no processo e obtenção de algum ganho pessoal”. Sigo a mesma linha (talvez um pouco mais provocativa), já que avalio que o tal “gerenciamento” tem como objetivo maior turbinar pontualmente os bônus anuais dos administradores.

Solução para os bueiros voadores cariocas? Simples, basta um Juiz determinar o bloqueio de valores na conta-corrente da Cia. (eles são tão rápidos para soltar banqueiros e assassinos atropeladores...), condicionando a liberação dos recursos à comprovação de troca de equipamentos obsoletos. Ameaças do MP, reportagens na imprensa... Nada disso funciona, a linguagem que todo executivo entende é a linguagem do dinheiro.

Mas o “gerenciamento de resultado” é algo complexo, que vai desde a “economia” deliberada (e por vezes criminosa) até ajustes contábeis de natureza discricionária. Temos um caso recentíssimo, publicado no jornal Valor de 21/6 (“Varejista chilena La Polar mancha reputação do setor”), onde a ocultação da necessidade de fazer provisões pela inadimplência de pelo menos 290 mil clientes alcançou a incrível cifra de US$ 891 milhões !!! Vejamos alguns tipos de “gerenciamento”:

  • A postergação de realização de despesas com propaganda (devidamente orçadas) pode afetar a participação no mercado;
  • A restrição à contratação de funcionários, mantendo o contingente de empregados abaixo do orçamento, pode comprometer a produção e o atendimento ao cliente, com deterioração da percepção da qualidade dos produtos/serviços;
  • A restrição à realização de gastos com treinamento e pesquisa pode comprometer a qualidade dos produtos/serviços e levar à perda de “talentos” para a concorrência;  
  • A adoção de uma política de vendas agressiva, com o afrouxamento das regras de crédito e sem a devida “arrumação” da empresa, pode acarretar um aumento na inadimplência e deterioração nos indicadores de qualidade (garantias, pós-venda, etc.);
  • A não realização de gastos com manutenção de equipamentos comprometerá a produtividade no médio prazo, além de criar um potencial passivo ambiental. Em uma empresa de serviços o resultado pode ser “bueiros voadores”....;
  • O acúmulo de rejeitos da produção, inclusive de produtos tóxicos, com a postergação de gastos com a destinação definitiva, cria um passivo ambiental no longo prazo; por vezes a constatação do dano acontece em 5 ou até 10 anos depois da “decisão gerencial” (configurada como crime diga-se de passagem);
  • A postergação de investimentos na modernização do parque fabril/tecnológico preserva o caixa no curto prazo, mas pode comprometer de forma irreversível a produtividade/competitividade no futuro;
  • A subavaliação dos valores a serem segurados preserva o caixa no curto prazo, mas pode ter consequencias irreversíveis em caso de sinistro;
  • A postergação da baixa de estoque de difícil realização e bens inservíveis;
  • Implementar medidas judiciais para evitar o recolhimento de impostos, com base em teses jurídicas de escritórios de advocacia especializados, sensibiliza temporariamente o EBTIDA, mas pode resultar em enorme prejuízo em caso de derrota no julgamento definitivo da matéria.
Vale ressaltar que essa lista não é exaustiva, devendo ser engordada a partir de contribuições dos visitantes. O email direto do Blog para o encaminhamento de contribuições é rchaves@blogdagovernanca.com.

Abs a todos e uma boa semana,
Renato Chaves

Um comentário:

  1. Um amigo do Blog alertou para o fato, publicado na imprensa, do modelo de formação de tarifas de energia elétrica “induzir” as empresas a postergar a manutenção preventiva, uma vez que os investimentos feitos na fase de revisão periódica das tarifas ajudariam a “turbinar” o reajuste (a revisão acontece a cada 4 anos em média). Citou ainda o caso da concessionária de energia que atende a cidade de SP, onde as interrupções de energia são bem mais freqüentes do que os “bueiros voadores” cariocas. Por fim, ele sugere uma pesquisa sobre o volume de dividendos distribuídos (os executivos estariam beneficiando os acionistas atuais em detrimento do desempenho operacional da empresa e do retorno para os acionistas no futuro), o tempo de interrupção no fornecimento e o índice de reclamações no PROCON.

    Vale lembrar que o caso do vazamento de petróleo no Golfo do México em abril/2010 não foi um fato isolado: a matéria dos jornalistas Guy Chazan, Benoit Faucon e Ben Casselman, do The Wall Street Journal (publicada no Valor de 01/7/2010), revela que a mesma empresa já enfrentava problemas com manutenção em outra plataforma (ou se esquivava dos problemas?), no mesmo Golfo do México dois anos antes, mas concluía que um problema com a vibração de certos equipamentos "não era em si uma causa para preocupação com a segurança ou o meio-ambiente", e adiou o conserto de algumas bombas para o ano orçamentário seguinte. Naquela oportunidade o vazamento foi pequeno (193 barris), mas os lucros recordes de 2008 e 2009 foram transformados em generosos bônus. No final da história terminou sobrando para peixes, albatrozes e seres humanos....

    Contra a ganância só nos resta uma ferramenta: a transparência.

    Abraços a todos,
    Renato Chaves

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