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17 de abril de 2011

Pequenos atentados diários contra a contabilidade: de grão em grão um dia o barco afunda....

Além dos casos de negligência, má fé e inabilidade, a situação que mais atormenta a vida de investidores é aquela onde o empreendedor original continua como gestor e controlador do negócio, mas sofre de um sério desvio de personalidade ao não conseguir separar a pessoa física da pessoa jurídica.   

Não irei me ater às questões jurídicas (dever de lealdade, de diligência, abuso do poder de controle, etc.), mas como um dedicado estudioso de contabilidade selecionei dois casos que, na minha modesta opinião, revelam muito bem como o desrespeito de um princípio contábil básico pode levar enormes conglomerados à quebra: o “Caso Perdigão” (fase pré-1996) e a saga dos Diários Associados (quem já curtiu mais do que 40 verões* sabe do que estou falando...).

Estamos falando do Princípio Contábil da Entidade, que afirma, resumidamente, que o patrimônio de uma sociedade não se confunde com aqueles dos seus sócios ou proprietários. Parece lógico, mas em ambos os casos podemos constatar que os verdadeiros atentados ao conceito, juntamente com a desorganização administrativa (proposital?), foram responsáveis pelo fracasso dessas organizações.

A 1ª fonte de consulta foi a imprensa, uma vez que não existem arquivos no site da CVM sobre processos contra os antigos acionistas controladores da Perdigão. A matéria “Uma família do peru“, publicada na Revista Veja de 24/11/1993 (folhas 110/112 da edição nº 1315 disponível em www.veja.com.br no link Acervo Digital), nos revela que os empréstimos concedidos às empresas da família, a contratação superfaturada de empresa de taxi aéreo de propriedade dos controladores (para uso da própria família !!!), a concessão de aval sem o devido reconhecimento nas demonstrações contábeis da empresa de capital aberto e a montagem de um esquema de importação de frangos subfaturados, entre tantos outros desmandos, gerou uma situação financeira insustentável, resumida na afirmação de um ex-diretor de que a empresa “era administrada com o rigor de um botequim”. Para o bem de inúmeros investidores, o controle foi transferido e a empresa foi recuperada, garantindo a manutenção de milhares de empregos; não restam dúvidas de que hoje a empresa é um caso de sucesso.

Já a saga dos Diários Associados é muito bem esmiuçada pelo renomado escritor Fernando Morais no livro “Chatô: o Rei do Brasil”. Os “atentados” contra o Princípio da Entidade começam logo no 1º dia de atividade, onde juntamente com a contabilização dos valores depositados para a formação do capital consta a saída imediata de todo o saldo do caixa na forma de “empréstimo ao Dr. Oswaldo Chateaubriand”; segundo o relato de um dos diretores “aquela era uma prova indiscutível de que oficialmente a nova empresa nasceu e quebrou no dia de sua fundação”.

Ao todo, existem citações em pelo menos 9 passagens do livro sobre os “ataques” do Sr. Chateaubriand diretamente aos cofres das empresas do Conglomerado, sendo que no final da sua vida, já bastante adoentado e sem condições de emitir os famosos vales “autorizatórios” para saque em espécie (normalmente redigidos em pequenos pedaços de papel de próprio punho), “as retiradas de dinheiro eram feitas pelo motorista Paulo Bruno Figueiredo todas as semanas no caixa dos Diários Associados, contra a apresentação de um vale assinado pela governanta Guilhermina Amato”. Uma verdadeira aula de como quebrar um verdadeiro império econômico.

E ainda tem gente que desconfia da eficiência das boas práticas de governança corporativa....

* aqui no Rio contamos a passagem dos anos em verões e não em primaveras...

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